Entraram na egreja, indo ajoelhar no altar do Santissimo; depois, levantaram-se e o prefeito mandou-os sentar n'um banco que ficava por baixo do pulpito.
O confessor era um só, o parocho. Um a um foram chamados os confessandos que, á maneira que voltavam, ajoelhavam rezando a penitencia. Claudio foi o ultimo. Rezou a confissão embaraçado e tremulo, mãos postas, cabeça curvada, os olhos fitos nos pés do confessor.
Começaram as perguntas, a seguir pelos mandamentos da lei de Deus e depois pelos mandamentos da egreja. A quantos tinha faltado? Mentia? Ah! n'este ponto tinha um peccado que fôra o seu primeiro grande remorso.
Um dia, um domingo, tinha chovido de manhã, e de tarde o prefeito mandou-os vestir para sairem; estava uma tarde calma, o ar carregado, os caminhos cobertos de lama. Claudio vestiu o fato preto e calçou os sapatos novos para se mostrar aos companheiros em trajos ricos.
—Para que anda o menino a estragar esse fato? perguntou o prefeito.
—Tinha frio, respondeu Claudio.
Mentira; não era frio, era vaidade. O remorso ia ficar-lhe de lembrança. Para o futuro seria mais corajoso.
O padre, um velhito, magro e bondoso, vendo o mundo já da beira do tumulo, sorriu com sympathia á pureza da creança, não quiz ouvir mais, mandou-lhe dizer o acto de contricção e absolveu-o.
A natureza sorria tambem nos gorgeios das aves que esvoaçavam fóra, no cemiterio, e nos suaves raios do sol da manhã que pela estreita fresta da sachristia alumiavam docemente a pobreza dos gavetões carcomidos em que o padre guardava o calice, a alva e as vestes.
Claudio veiu ouvir a missa e saiu da egreja contente. Sentia-se bem, a consciencia e a virtude tinham vencido todas as duvidas; pela primeira vez experimentava a grandeza d'um dramatico triumpho intimo.