Mandavam-n'o ali estudar; era preciso voltar a Villalva, exames feitos, coberto de louvores, sem uma falta. Temia a severidade do pae e temia ainda mais as lagrimas da mãe. O espirito da creança concentrou-se na sua tarefa; os mestres viram com admiração o estudo e a intelligencia do novo discipulo que vinha com fama de aprender mal.

O abbade, o tio, immundo e gordo, arfando de cansaço, vinha vêl-o algumas vezes e pagar as mezadas. Pouco fallava ao sobrinho.—Que era preciso estudar, eram as suas palavras quasi invariaveis. Pelo director sabia que ia bem e, como não tinha que reprehender, pouco fallava, porque, na sua opinião e na aridez do seu coração de celibatario, era preciso chamal-os ao respeito, não dar confiança a esses fedelhos.

Aos sabbados havia lição de doutrina christã. A primeira vez que Claudio foi interrogado, foi para elle um triumpho. Sabia tudo: os mandamentos da lei de Deus, os mandamentos da egreja, as bemaventuranças, as obras de misericordia, os peccados mortaes, tudo, tudo, até os inimigos da alma. Os camaradas ouviram-n'o com espanto e elle sentiu-se victorioso e contente. Havia de o contar á mãe; era uma boa nova a levar-lhe quando fosse a férias.

Um dia o padre Netto espraiou-se mais que de costume na lição; foi até fallar do inferno, dizendo que os doutores da Egreja ignoravam se era um logar em que se soffriam todos os tormentos e dores que o corpo póde soffrer, se um estado em que a alma andava errante, em continua agonia. Estranha revelação para Claudio, esta que para os seus camaradas passára incomprehendida! Ficou scismando. Vagamente percebia um céo e um inferno differentes d'aquelles com que a mãe o embalára. O theologo mostrava-lhe a dupla natureza do seu ser, sentia uma alma feliz ou torturada, mas inteiramente apartada do corpo. No seu espirito accumulavam-se os germens de meditação sobre a consciencia e o destino humano.

N'este mesmo anno levaram-n'o pela primeira vez á confissão. Foi um dia, que ficou memoravel na sua lembrança, assim como a inquietação que o precedeu. Quaes eram os seus peccados? Quantas pragas rogára? Tinha deixado alguma vez de estudar as lições por preguiça? Queria mal a alguem, aos professores ou aos camaradas? As duvidas traziam-n'o em sobresalto, porque era preciso dizer tudo para que a confissão fosse bem feita. Era preciso dizer tudo, e com sincero arrependimento e proposito de emenda.

Além d'isso,—suprema duvida,—era preciso arrepender-se pelo amor de Deus e não pelo temor das penas do inferno. Era realmente assim? Por esforço da vontade procurava obedecer ao amor de Deus, mas a sua consciencia infantil não podia alcançal-o. O temor do inferno predominava.

Fosse como fosse, o essencial era fazer a confissão completa e elle ia dizer todos os peccados de que se lembrasse.

O collegio ficava n'uma encosta; a egreja no valle, sobre a ribeira que o cortava. Descia-se rapidamente e seguia-se depois pelo valle acima, n'um caminho quasi plano, de grande lagedo de granito, orlado de carvalhos enfeitados de videiras; ao fim, um pequeno adro, a egreja e junto d'ella o cemiterio.

Ao romper do sol, o prefeito fez sair todos os que se iam confessar. Manhã de primavera, orvalhada, fresca, viçosa nos renovos do arvoredo; e Claudio opprimido, concentrado nas suas duvidas, sentia pela primeira vez bem nitidamente o divorcio entre a alma inquieta e a impassibilidade sorridente da natureza.

Com que delicia beberia o ar de manhã! Mas um demonio interior o suffocava. Começava a aprender o que era a vida humana.