A creança ouvia, promettendo fazer o que a mãe lhe ia pedindo. Cerca das onze horas, como já passasse muito da hora a que habitualmente se deitava, encostou-se sobre duas cadeiras e adormeceu, com a cabeça repousada sobre o braço. A noite começava a arrefecer. A mãe foi buscar um chale, abriu-o, afastou-lhe o braço e d'um casaco velho fez um travesseiro em que lhe pousou a cabeça. O pae estava dormindo na cosinha, não quizera deitar-se na cama; não valia a pena por tão pouco. E, n'este silencio que a fadiga trouxera, a mãe ficou só, velando, ajoelhada em oração perante o Christo, a rogar-lhe fervorosamente protecção para o filho.
Ao bater da meia noite foi accordar o marido, o filho e o creado que dormia em baixo, no palheiro.
As despedidas foram breves que nem o marido gostava de expansões nem o pequeno Claudio, tonto de somno, podia dar-lhes grande attenção.
A mãe acompanhou-os até á porta e logo os viu perderem-se na confusão da neblina mal illuminada pelo luar, ladeira abaixo, o pequenito pela mão do pae, atraz o creado, varapau ao hombro e sobre elle a caixa de folha, vibrando estridula e compassada. Ao fundo estava o carro. Claudio, mal elle partiu, adormeceu novamente. E assim foi, moido da jornada, accordando só por breves minutos se o chamavam, até ás alturas de Espinho.
Quando ali chegou, era madrugada; cedendo ao habito despertou. Onde estava? Que era feito dos doces ruidos de Villalva, da voz do pae marcando trabalho ao creado, dos passos da mãe na cosinha, abrindo a arca para levar o milho á creação? Tinha saudades, as lagrimas marejavam-lhe nos olhos, mas a novidade da payzagem e a vertigem do movimento distraiam-n'o e moderavam esta hora de angustia.
Estava ao pé do mar. Não o surprehendia, já o tinha visto na Figueira, quando lá fôra em romaria com a irmã, pelo S. João, no anno em que ella se casou; atraia-o esta vastidão inquieta que Deus creára e em que admirava o seu poder. Apearam-se em Villa Nova de Gaya e causou-lhe grande estranheza a ponte pensil; mas vira e não comprehendia como tinham lançado aquellas cordas de ferro, d'um ao outro lado do rio. As ruas e as praças do Porto pouco o impressionaram; eram semelhantes ao que havia em Coimbra, na Calçada, na Portagem e na feira de S. Bartholomeu. O padre Netto mostrava-lhe as estatuas, D. Pedro IV, D. Pedro V. Sabia quem eram? O mestre escola fallava d'elles, lá em Albergaria, mas era para os mais adiantados. D'uma só cousa os seus olhos não podiam desprender-se, cheios de pasmo e curiosidade: os bois. Estranhava-os muito, com os seus grandes cornos, em lyra, e as mãos tortas, quasi aleijadas, deformadas pelo trabalho violento na calçada. Eram feios; os d'elle eram mais bonitos, cornos curtos, pernaltos, aprumados e nédios.
Ao collegio devia chegar á noite, depois de cinco horas de carruagem. Iam continuar os aspectos novos que tanto captivavam a sua curiosidade de creança: Rio Tinto e os seus teares sem conta,—em Albergaria havia só um,—Vallongo e as pedreiras de lousa, e as vides a trepar pelas arvores e os valles estreitos e humidos com os seus altos milharaes. Oliveiras não havia. Com que se alumiavam? perguntava ao padre. O azeite vem de fóra, respondia. E aquillo o que é? dizia apontando uma construcção desconhecida, sobre quatro pilares de granito. É um espigueiro; guardam ali as espigas do milho até ficarem bem seccas e só depois é que o malham. Assim passou toda a tarde, interrogando, vendo, observando tudo o que se prendia com os seus habitos e com a propensão natural do seu espirito. O padre ia-lhe respondendo. Era um homem paciente e bom, muito habituado a creanças, sabendo conquistal-as.
Os primeiros dias do collegio foram maus, pouco de molde a apagar as saudades que Claudio tinha da casa. Os companheiros escarneciam-n'o ao vêl-o nos seus enormes sapatos, a roupa nova, angulosa e hirta, d'uma vastidão desproporcionada. Perguntaram-lhe quem era o pae.
—Meu pae, respondeu vaidoso, é o thesoureiro da junta de parochia.
Começaram a chamar-lhe o thesoureiro e Claudio, timido, vexado, sentiu-se só entre aquella multidão desconhecida. O isolamento em que vivera em Villalva, os aturados conselhos da mãe, ensinando-o cedo a distinguir entre o bem e o mal, o exemplo da austeridade do pae, mataram á nascença na sua alma todo o germen de expansão e de lucta, quebraram todas as forças animaes e deixaram o terreno varrido para n'elle se alastrar a dolorosa consciencia da obrigação.