Era preciso, dizia-lhe a mãe, rezar muito, e por muito que se rezasse nunca era o bastante para alcançar o perdão de todos os peccados; ficava-se sempre em divida. Scismava n'este mysterio.
A isto se reduzia a educação de Claudio, ás singelas lições do exemplo e aos piedosos conselhos da mãe quando á noite, findo o trabalho, emquanto não chegava a hora da ceia, se sentava com elle no chão, sobre a esteira, ao canto da sala, proximo do oratorio.
Decorreram dois annos n'este abandono. Ao fim, em agosto, veiu uma nova carta do Minho, decisiva. O abbade voltava a insistir na educação do sobrinho; as despezas eram por sua conta. Não se prendessem com isso. O seu amigo padre Netto ia passar as ferias ao Carregal, não tinham mais do que entregar-lhe o rapaz no primeiro de outubro, viria com elle para o collegio. Depois o abbade olharia pelos estudos.
O pae d'esta vez não hesitou. A carta era tão terminante que não podia deixar de fazer a vontade ao irmão sem o risco de perder toda a herança para os filhos. Sem demora, com a sua habitual firmeza, tratou do enxoval. Um dia, pela madrugada, metteu algum dinheiro no bolso e foi com a mulher e com o filho a Albergaria. Ahi tomaram a deligencia e seguiram para Coimbra. Por lá andaram algumas horas, de loja em loja, desconfiados dos preços, abrazados de calor, regateando e comprando os pannos, o chapeu, os sapatos, a gravata e a caixa de folha que havia de ser dentro de dois mezes a magra bagagem do bisonho estudante. Á tarde voltaram a Villalva.
Veio a costureira e o alfaiate. Queria-se tudo largo, muito largo, senão, elle era um latagão, d'aqui a pouco nada lhe servia, era um desperdicio. N'esse canto da sala, sobre a esteira, entre a janella e o oratorio, ali onde á tarde Claudio recebia as piedosas lições da mãe, o chão semeou se de linhas e de farrapos, de pedaços de panno orlados de grandes alinhavos, entre elles a pregadeira e a thesoura postas a um lado. Ia n'aquella casa, tão tranquilla, um bulicio desusado; a costureira cantava, rasgavam-se asperamente as peças de bretanha, e a mesa animava-se com o novo conviva, a rapariga que tagarellara todo o jantar, contando o que ia na villa e o muito que brincara quando fôra a Balmaes, á Senhora da Saude. Tinham andado toda a noite a dançar no jardim do sr. Cunha, um fidalgo que lhes mandara dar pão dôce e licores.
Claudio estava contente, tudo aquillo era para elle; a singela vaidade infantil alegrava-se com as parcas riquezas que aos seus olhos tamanhas pareciam.
O movimento foi baixando, as camisas juntaram-se dobradas sobre uma cadeira, a costureira não voltou, varreu-se a sala e o pequeno casal de Villalva caiu no seu habitual silencio.
O pequenito sentiu então o primeiro travo da saudade. Ia partir. Para onde? Os mestres eram tão maus... E os bois? e o seu cão? e as suas flôres? Iam talvez seccar. Só se fosse a mãe que as regasse para as pôr a Nosso Senhor. Já lh'o pedira e ella tinha-lh'o promettido.
O padre Netto mandara dizer que o rapaz devia estar no primeiro d'outubro, ás tres horas da madrugada, na estação do caminho de ferro, em Coimbra, para seguir com elle. Precisavam sair de Villalva á meia noite.
Depois da ceia começou a fazer-se a mala. Já estava tudo na sala, faltava arrumar a caixa. Claudio assistia e ajudava, allumiando com o candieiro na mão e ouvindo as recommendações da mãe. Iam duas andainas de roupa, mas a preta era só para os domingos, para ir á egreja, a alguma festa, ou para quando o sr. director mandasse; que visse bem, não se perdesse alguma coisa, tudo aquillo tinha custado muito dinheiro. Iam tambem uns sapatos pretos, só para trazer com a roupa melhor, não fosse estragal-os na brincadeira. Juntou-lhes ainda um rosario de contas de vidro branco e verde enfiadas n'um cordão vermelho, não se esquecesse de o resar todas as noites a Nossa Senhora, por alma dos avós e para que ella o ajudasse em todas as afflicções da sua vida e o defendesse das tentações do mundo.