Entretanto Claudio frequentava a escola e, graças ás hesitações do pae sobre o seu destino, não lhe davam na lavoura serviço pesado; cuidava dos bois, se o creado trabalhava longe de casa, levava o jantar aos trabalhadores, se os havia de fóra, andava á tarde na apanha da azeitona. Era uma creança nutrida e forte, pacifica, as faces rosadas, cabellos e olhos castanhos, uma certa mansidão no olhar; parecia-se muito com a mãe que fôra sempre um modelo de paciencia. Aprendia mal, continuamente distraido, e associava-se pouco aos companheiros da escola; ao peão na barra, nas brigas e nas corridas ficava sempre vencido. O seu maior prazer estava n'um cantinho do quintal onde plantava flores que a mãe lhe pedia para pôr n'um vaso, no oratorio, aos pés d'um crucifixo. Vagueava pelo pateo, ora examinando os bois, ora afagando o cão, ora debruçado no muro a vêr as gallinhas que na rua apascentavam as ninhadas. O pae tinha-o em pouca conta.

—Nunca ha-de ser nada com aquella preguiça; comer, dormir e passeiar. O que elle quer é andar de mãos nos bolsos. Está mesmo bom para abbade.

—Ora deixa lá, respondia a mãe, Deus sabe o que elle será.

Essa sim, essa tivéra sempre grande inclinação para o filho, e muito mais agora que a rapariga se tinha casado e ficára só com elle. Ensinava-o a rezar, toda a doutrina christã, e repetia-lhe muito os mandamentos da lei de Deus e as bemaventuranças.

Bemaventurados os pobres d'espirito, e os que são mansos, e os que choram, e os misericordiosos, e os pacificos; é para elles o reino dos céos. Pintava-lhe as penas do inferno para os máus e a presença de Deus, na companhia dos anjos, para os bons. A creança não se cansava de interrogar. Como seria? Pelo seu espirito passavam sombras de terror quando o julgavam e lhe diziam:

—Isso é peccado.

Temia o inferno. Penas eternas! em lá caindo, era para sempre.

Os mendigos vinham á porta da cosinha, andrajosos, esfarrapados, calcando o matto fôfo e humido com o bordão a que tremulos se arrimavam. A mãe, para animar o filho na caridade, mandava-lhes por elle um pedaço de brôa.

—Seja pelo divino amor de Deus. Por alma de quem lá tem: Padre nosso que estaes nos céos...

O pequenito ouvia silencioso. Era bom; Deus ouvia tambem os mendigos e perdoava os peccados aos que tinham morrido e estavam nas penas do purgatorio.