Apezar da serenidade apparente que Claudio revelava, era certo que a carta de Jorge lhe deixára uma profunda impressão de mágoa. Todo o passado se dissolvia. Mulher, filho, amigos, tudo se transformava em sombras de que se affastára a vida que só no coração residia; desligados do seu affecto, morriam para os seus olhos perante os quaes passavam como espectros d'uma apagada existencia. Não fôra elle que errára? Não significava esse isolamento que elle tinha deixado o bom caminho, aquelle em que as almas cantam uma alegria sem peccado? Voltavam suspeitas, duvidas cruciantes.
Todavia, exteriormente, a vida de Claudio parecia ter caido na mais absoluta calma. Na aldeia já ia esquecido o escandalo e o povo acceitava sem murmurio os amores de Maria; a caridade, a modestia e a singeleza que continuavam a ser os espiritos bons do casal de Claudio varreram rapidamente a repugnancia que ao maior numero inspirava a sua desregrada paixão, substituindo essa passageira aversão pelo mais carinhoso respeito.
O pae de Maria ficára entrevado, mal se arrastava da cama para o quintal, a aquecer-se ao sol ou a visitar os gados, tentando ainda relembrar a antiga vigilancia e uma febre de trabalho que a doença não pudera anniquilar inteiramente; mas a familia, com a peculiar resignação que a gente rude põe na acceitação das cousas sem remedio, perdoára a Maria a sua falta e frequentava-lhe a casa e as relações como a do visinho a que mais queria.
A vida ainda tinha alegrias para Claudio. Brotavam, como flores silvestres disseminadas pelas montanhas aridas, das aguas que se escoavam espumantes na azenha ou se perdiam mudas beijando as tumidas raizes do arvoredo, dos cantares das lavadeiras que erguiam os braços robustos batendo turgidos linhos sobre as pedras da ribeira, dos zumbidos das abelhas fartando-se na madresilva dos comoros, do sol espargindo-se nos orvalhos com que a noite mansamente cobrira os campos; brotavam do palpitar da natureza em que todo o movimento é sem peccado, e brotavam ainda do coração de Maria em que a simplicidade e o amor fulguravam, protegendo em um nimbo de pureza sadia o espirito decrepito e enfermo de Claudio.
Muitas vezes, quando o trabalho apertava ou quando o calor era muito, Claudio descia de manhã ao campo e só voltava a casa ao pôr de sol. Maria trazia-lhe o jantar ao meio dia, o caldo, a broa e o conducto.
Procuravam uma sombra a que se acolhessem; a refeição fazia-se n'um recolhido silencio que era como uma prece perante a magestade olympica da natureza.
Depois vinham as sestas, cerrando os olhos na contemplação das flores que se abriam ao sol exalando aromas n'uma mysteriosa fecundidade.
Uma tarde, por um dia de julho, Maria veio, como de costume, trazer o jantar a Claudio, o cesto á cabeça coberto d'uma toalha alva e grosseira; nos braços o pequenito, repousada a fronte sobre o hombro da mãe, no abandono em que o somno o vencia.
Chegando ao campo, foi poisar a creança sobre o chale, debaixo d'uma oliveira, proximo d'um muro, abrigando-a do vento e do sol que abrazava, caindo das serras.
Claudio sentou-se ao lado, sobre uma pedra, e Maria sentou-se tambem, em frente d'elle, no chão, desapertando o lenço e mostrando o cólo, agora exuberante no primeiro despertar da maternidade.