Estavam calados, n'um d'aquelles silencios que eram frequentes e em que perpassava uma palpitação d'amor e de ventura.
A creança tinha uma belleza angelica, os olhos cerrados, os finos cabellos loiros desalinhados, o sangue agitado pelo calor da atmosphera e os labios humidos, levemente entreabertos, como segredando palavras ignoradas d'uma doçura divina.
O pae attentou na mãe e no filho. Sentindo desprender-se d'aquelles peitos impenetraveis á corrupção um refrigerio que instantaneamente corria as feridas do seu coração, libertando-o de dôres perguntou a Maria:
—Gostavas de ter muitos filhos?
—Filhos!... respondeu ella rindo surprehendia da estranheza da pergunta. Cada um tem os que Deus dá!...
Claudio calou-se novamente, dominado de respeito. Era a voz da virtude ingenua que chegára aos seus ouvidos, da coragem na acceitação da condição humana, da religião no amor sem limites, na conformidade do destino.
N'aquella rapariga humilde, pobre e rude, encontrava o que nem o saber nem a razão tinham podido conceder-lhe.
Ai! Era bem certo!... A felicidade havia de nascer do coração em jorros cristalinos como a agua que rebenta entre os rochedos.
Tentar subjugal-a sob os impulsos da intelligencia era profanal-a. A candura maculada jámais recupera a alvura.
N'este labor continuado, em que o amor da terra o absorvia, havia ainda para Claudio horas de repouso e de ocio, já por simples fadiga, já porque o trabalho tinha tambem as suas pausas naturaes.