Vinham então a leitura, a meditação e as longas caminhadas pelas veredas desertas, pelas cristas despidas dos montes ou pelos valles apertados, entre o arvoredo cerrado.
Procurava, avidamente, em interrogações infinitas, conquistar para si um retalho d'essa paz augusta em que toda a natureza se envolvia. Escutava, na doce luz do crepusculo, o brandir compassado da Ave Maria em que sentia murmurios de orações, supplicas e louvores de gratidão erguendo-se da aldeia e confundindo se n'uma só prece, em mystica união, com o repouso que a noite vinha derramando.
Queria lançar a sua alma n'essa fornalha ardente d'amor e de fé, purifical-a no contacto das almas simples, mas sempre sentia o tumultuar d'um passado que o despertava dos sonhos bons para o torturar nas angustias da consciencia.
Temia as noites tenebrosas do inverno e os dias pesados e humidos que o obrigavam a enclausurar-se na estreita sala de Villalva. Renasciam phantasmas que julgára dissipados, visões sombrias que a luz do sol e os carinhos humildes de Maria pareciam ter varrido para sempre.
Começava a desfiar esse rosario das suas amarguras; um infinito desalento se apossava do seu espirito, prostando-o de desesperança, convencendo-o da infelicidade sem remedio.
Porque não casára com a Conceição e passára de animo leve sobre as suas lagrimas? Porque abandonára Emilia á miseria que elle mesmo por suas mãos tinha aggravado? Porque deixára Laura que elle espontaneamente fôra buscar tal qual era, com todos os seus prejuizos? E Maria,—pobre Maria!—para que a juntára á sua desgraça, roubando-a ao amor sadio do seu namorado? Egoismo, ciumes, aspirações impuras que tinham perdido a sua alma, lançando-a nas chammas do remorso.
Revoltava-se contra a miseria do corpo que com seus doidos anceios o tinham transviado do caminho de caridade e de sacrificio em que, imolando as suas ambições, teria encontrado a paz da consciencia.
Tentava desprender-se d'esse pesado involucro carnal com frequentes jejuns e esforçando-se por ser casto. Por momentos, quando as minguadas forças physicas pareciam dar ao espirito uma liberdade que o enlevava em delicias, tinha a illusão de que chegára a hora de renascer n'uma vida de pureza e resgatar o passado, santificando-se pelo offerecimento a Deus de toda a sua existencia, calcando como reptis venenosos os ardores dos sentidos.
Essa illusão pouco durava. Rebrilhava o sol, punha a enxada ao hombro e, revolvendo a terra, communicava-se-lhe essa gigantesca vibração de fecundidade que é a propria vida de todo o universo. Crear, reproduzir a sua força e o seu sangue nos seus filhos, nas flôres e nos fructos que regára com o suor do seu rosto, era nas horas de culto naturalista o novo deus a que sacrificava. E, abandonando-se a esse movimento, outras bençãos, as bençãos do amor terreno triumphante, se lhe espargiam sobre a fronte e lhe infiltravam um vigor desconhecido.
N'esta lucta, porém, consumia-se; as suas forças decaiam rapidamente. Ás vezes dominava-o um abatimento, uma prostração em que sentia proximo o seu fim. Então convencia-se que aquillo que tomára por um rejuvenescimento não era mais do que uma desesperada excitação em que inteiramente e para sempre ia anniquilar-se.