Em um d'esses dias, pouco tempo depois de Maria lhe ter dado o segundo filho, recolheu tarde. Maria já por mais d'uma vez viera á porta, olhando o caminho a vêr se o descobria, quando elle entrou.

Vinha contente, risonho, como que alliviado das suas preoccupações sombrias.

—Vim tarde. Estavas com cuidado?... Tem paciencia. Foi-me preciso...

—Não, logo me lembrei que andasse a passeiar ou tivesse tido alguma coisa que fazer, mas nunca se fica em descanço. Ás vezes, onde menos se espera estão trabalhos.

—Tive de ir a Albergaria. Toma, guarda isto bem guardado. É o teu pão e dos nossos filhos, se eu faltar, disse elle, entregando-lhe um papel azulado com grandes manchas de lacre.

Era o seu testamento em que lhe entregava, por sua morte, os bens de Villalva.

—Para que é isso? respondeu ella recuando com uma anciedade triste. Deus Nosso Senhor hade levar-me primeiro.

—Não, não... guarda, replicou Claudio com firmeza.

A rapariga então, obedecendo, recebeu o papel e, os olhos rasos de lagrimas, beijou as mãos de Claudio.

Quizéra insistir na recusa, sentia uma commoção que a turvava, mas era a sua vontade, a vontade d'elle, e amal-o era obedecer-lhe, era servil-o.