Com estas instrucções partiu para Villalva onde foi encontrar o amigo, morto, sobre o leito, já lavado e vestido pelas mãos de Maria e do creado Luiz.
Não se atreveu a entrar sem pedir que o annunciassem a Maria. Ella veiu recebel-o á sala.
Jorge não teve coragem de articular uma palavra, tão grande era a commoção em que todo este drama o lançava.
Foi Maria que singelamente resolveu a situação, dizendo-lhe magoadamente e reprimindo as lagrimas:
—Então o senhor era o amigo d'elle?!... Ai! Que pena não ter vindo mais cedo!... Fallava tanto no Jorge quando delirava... Parecia que lhe queria dizer alguma cousa...
Immediatamente, como prescrutando n'um breve esforço o que significava ali a presença de Jorge, entre as lagrimas que já não podia mais conter, perguntou:
—Vem buscal-o, não é verdade?... E elle que tanto queria ficar ali ao pé da mãe!...
Pela manhã veiu um carro funerario, com penachos negros, a balouçarem-se no macadam, sobre o qual pozeram o caixão que continha o cadaver de Claudio. Maria viu-o affastar-se, de joelhos, orando ao pé da janella e pedindo, não a Deus que o tivesse junto de si porque no seu espirito não podia haver duvida sobre a salvação de Claudio, mas a Claudio que junto de Deus a protegesse e amparasse com o seu auxilio. O carro desappareceu entre as ramagens dos choupos que orlavam a estrada; ella voltou os olhos para os cyprestes do cemiterio, como querendo instinctivamente prender-lhes qualquer cousa que lhes roubavam, e ergueu-se a dar o peito ao filho que se movia no berço.
Levaram o corpo de Claudio para a egreja de Santa Cruz e pozeram-n'o sobre um catafalco rodeado de tochas accesas e muitas velas em serpentinas de prata. Cobriram-n'o de corôas feitas de pannos tingidos, em fórma de flores, e aos pés do caixão, do meio d'esse montão informe de enfeites, pendia uma fita preta com grandes lettras douradas, dizendo:
Eterna saudade da sua Laura.