Claudio sentia-se mal, sentia-se fraco; talvez d'aquelle calor, pensava, mas na realidade a agonia vinha-lhe do coração, da vaga consciencia de que ia quebrar uma urna de affectos limpidos e sãos cujos pedaços jámais poderia soldar e cujo licor sagrado para sempre se perderia no pó em que tão impensadamente o derramava.

Aquelle momento havia de lembrar-lhe, muitos annos depois, com um arrependimento lancinante quasi com remorso.

A Conceição veio alegre e risonha, como de costume, entregue sem reserva á alegria de vêr o seu Claudio; elle opprimido.

Com um miraculoso poder de sympathia que tudo adivinha, a Conceição perguntou-lhe immediatamente:

—O que tem? Vem hoje tão triste!

—Tenho a dizer-te uma cousa que te vae fazer chorar, mas é preciso que t'a diga. Isto não póde continuar, disse Claudio brutalmente. Olha, Conceição, meu pae nunca consentiria que nos casassemos e então para que hei-de enganar-te? Hei-de ser sempre teu amigo, mas por isso mesmo não quero prejudicar a tua felicidade. Não te faltam bons casamentos, pódes ser ainda muito feliz. O mal é para mim que vou perder-te.

A Conceição chorava de dôr e de surpreza; nada sabia dizer.

Se era por ella ter feito algum mal, que lh'o dissesse, que não podia ser senão intriga; que só pelo amor que lhe tinha lhe custava deixal-o...

Claudio porém insistiu no proposito de terminarem as suas relações e apartaram-se, ella banhada em lagrimas, elle cruelmente alliviado por se libertar d'uma situação que começava a pesar-lhe.

No fim d'um anno a Conceição casava com um carpinteiro. Passa ás vezes na villa, o cesto á cabeça, quando leva o jantar ao marido, o farto collo a entrevêr-se pelo chambre desabotoado no pescoço para respirar na pesada atmosphera do estio. Claudio via-a, contente por se convencer de que os amores idyllicos não tinham sido estorvo á sua felicidade. Um dia a veria com saudades da ventura que perdera!