N'estes errores do espirito se consumiram os cinco annos que Claudio passou em Coimbra; ao fim d'elles era necessario voltar a Villalva.

O problema da sua existencia apresentava-se-lhe cada vez mais urgente, cada vez mais confuso, a alma dilacerada entre os impulsos mysticos que vinham da sua primeira infancia, as instigações do espirito inquieto por uma sciencia estreita e incompleta e vagos ardores de mocidade que o aconselhavam a calcar sciencia e mysticismo e entregar-se sem reserva ás expansões do instincto. Que fazer?

Poucos mezes depois de regressar a casa, vieram o administrador do concelho, o reitor do Ervedal, o prior de Villar, o regedor do Sabugal e o Rodrigues, grande influente nas freguezias da serra, convidal-o para a presidencia da camara.

Diziam-lhe que a eleição era segura, por esse lado nada tinha a receiar, ninguem lh'a disputava, mas, quando a disputassem, estava alli força sufficiente para a vencer, pois que os homens que alli via representavam mais de dois terços da votação de todo o concelho.

Tambem não faziam questão de lista, elle escolheria os collegas que quizesse; o que desejavam era um homem sério e capaz, porque não imaginava o que ia na camara. Uma ladroeira! Traziam toda a sorte de vadios a receber por conta do cofre municipal e até se dizia que o presidente estava alcançado.

—Dizia! Era certo, accrescentava o reitor do Ervedal. Ainda ha pouco, quando foi obrigado a entrar com a receita da viação, teve de pedir oitocentos mil reis ao José Maria, das Aranhas, e hypothecou-lhe a terra da Preza.

Claudio defendia-se; que estava muito novo, queria estudar e não se mettia em politica. Tudo intrigas, tudo dissabores!

—Não era politica, replicavam-lhe, era um serviço que prestava ao concelho. Visse o que o pae tinha feito na junta de parochia. Nas obras do cemiterio deixava tudo para estar ao romper do dia ao pé dos trabalhadores. Poupou muito dinheiro á freguezia com o seu zelo e a sua economia, e prejudicando-se porque para isso tinha de deixar a sua vida. Agora elle que era um rapaz formado e rico!... Até o entretinha! Que fazia alli, sempre agarrado aos livros?...

Depois... precisava pensar, em tres dias responderia definitivamente,—foi a evasiva com que Claudio se libertou dos seus interlocutores que começavam a fatigal-o com rogos e instancias.

Ao fechar a porta, recolheu murmurando: