—Pois sim! Contem com isso, não me faltava mais nada do que metter-me n'essa vinagreira.

O seu proposito de recusa era formal, mas temia o desgosto do pae que adivinhava de opinião differente. Só perante este queria desculpar-se, porque para os outros a resposta estava feita.

Consultou-o. Com grande surpreza sua viu que não o animava. Que não se illudisse, dizia-lhe, já sabia muito bem o que era tudo aquilo. Todos os que alli vieram tinham as suas pretensões; não o queriam na camara senão para as satisfazer. Bem se importavam elles com as cousas do concelho! Cada um cuidava de si, da sua fonte e da sua estrada. Quando esteve na junta, o Mattos, da Azenha, ficou de mal com elle porque não lhe mandou compôr o caminho do Freixial. Queria que lhe fizessem estradas para as suas quintas e não se importavam de mais nada! Tambem lhe não aconselhava que recusasse; um homem precisa servir para alguma cousa. Mas se imaginava que nos cargos publicos havia só honra e gloria, estava muito enganado; trabalhos e desgostos é que lá encontraria.

No fundo desejava que o filho acceitasse, considerava como um triumpho para a sua vida a situação de Claudio; mas já velho, conhecendo o mundo e amando o filho, invadia-o o desprendimento das vaidades e o egoismo do repouso, não se atrevia a aconselhar uma vida de inquietações.

Claudio, percebendo a hesitação do pae, recusou, e este, quando mais tarde foi prevenido pela mulher da resolução do filho, respondeu:

—Não está para os aturar. Faz muito bem. Tem que comer e quer viver descansado.

Não passavam porém sem deixar vestigios estes incidentes. Que fazer? que fazer? Não era a vida qualquer cousa que elle tinha obrigação de aproveitar em beneficio dos outros?

Toda a hypothese de solução, ainda que ephemera, fazia reviver o problema. Bastava uma proposta dos politicos da villa para que comsigo trouxesse longas meditações sobre a escolha entre uma vida d'acção e uma vida de estudo e meditação.

Os dias corriam longos entre o fastio dos livros, por uns vagos desejos da acção, e o desgosto da acção, por uma interior necessidade de recolhimento. Amores não os havia profundos, que este estado tudo turvava e embaraçava, só a duvida imperava dissolvendo e quebrando toda a energia e todo o movimento salutar e espontaneo.

Necessariamente haveria remedio para esta situação.