Era preciso procural-o no estudo, deveria estar n'esses montões de livros que se lhe accumulavam sobre a mesa.

O melhor era estudar, mas d'esta vez com methodo e conforme os bons principios, que nem os padres nem os lentes da Universidade lhe tinham dado instrucção aproveitavel. Começava-se pela mathematica e seguia-se pela physica, pela chimica, pelas sciencias naturaes, a terminar na historia, nas sciencias sociaes, nas bellas artes e na litteratura.

Quando tivesse levado a cabo esta empreza, então poderia fazer alguma cousa com plena consciencia.

E a pequena sala de Villalva encheu se de estantes de livros, de retortas e de apparelhos estranhos que a rude gente da aldeia olhava com curiosidade e desconfiança.

Não podiam porém varrer-se n'um dia os velhos habitos, mórmente no proprio local em que se tinham creado; não podia supportar o estudo aturado aquelle que fôra educado na liberdade dos campos e nos prazeres da vida rustica.

Claudio sentia-se fraco, incapaz de levar a cabo a sua empreza com a tenacidade que ella, no seu entender, reclamava; aborrecia-se do estudo, a cada passo trocava a leitura dos livros de chimica por um romance ou por um trecho poetico, vinha á botica saber dos namoros das raparigas e dispendia longas horas em um novo jardim que fizera no cerrado, á entrada da aldeia, onde o pae cavára uma cisterna e tinha a eira e os abrunheiros. Era quasi um escandalo. Que rapaz aquelle! Não fazia nada, ninguem sabia o que elle queria, alli mettido com os livros.

O regedor passou uma tarde de maio em que Claudio com uma thesoura limpava as roseiras dos pedunculos das flores desfolhadas.

—Tenha v. ex.a muito boa tarde, disse-lhe.

—Ora viva o sr. regedor! Então como vae?

—Obrigado, como velho.