Valia-lhe ás vezes Coimbra, alguma noite no theatro, onde por accaso encontrava quem lhe fallasse de Flaubert, de Zola, de Comte ou de Spenser, as grandes preoccupações de seus estudos. Mas isso mesmo era raro porque, nos cinco annos que lá tinha estado, levára uma vida bisonha, retrahida e poucas relações deixára.
D'esse tempo ficaram-lhe apenas dois amigos; Jorge de Castro, que ha pouco encontramos em Lisboa, aconselhando-o na installação do palacio de Albergaria, e José d'Albuquerque que mais tarde nos vae apparecer intimamente ligado á vida de Claudio.
Ambos esses amigos eram fidalgos de nascimento e de habitos. Fôra curiosa a maneira porque entre elles e Claudio se creára um profundo affecto, apezar das tendencias e da origem plebeia d'este ultimo.
Claudio passeiava habitualmente só. Vinha porém todas as tardes a uma livraria da baixa, na Calçada, procurando com avidez as novidades litterarias chegadas de França e prescrutando, entre os livros alinhados nas prateleiras, o caminho a seguir na sua ancia de saber. Era ali que invariavelmente encontrava Jorge de Castro e o Albuquerque, propensos como Claudio a cousas litterarias. D'este modo, por este unico laço, começou a constituir-se essa amisade que a uniformidade de sentimentos e de nobreza d'alma consolidou no futuro. Findo porém o tempo escolar, Jorge fôra viver para Lisboa e em Coimbra só ficára o Albuquerque, em casa de quem Claudio raro apparecia emquanto estudante, porque todo o apparato de luxo que encontrava brigava com os seus habitos e a sua educação.
Agora que mudára de ideias e de aspirações, aproveitava a hospitalidade do amigo, para desenferrujar a lingua, dizia, que era uma necessidade permutar ideias.
Nem assim, com todo este complicado artificio, podia conformar-se com a vida de estudo que architectara. Ás vezes possuia-se d'um invencivel fastio dos livros e corria ao jardim, plantando, regando, limpando as arvores e as flôres, voltando instinctivamente aos bons habitos da sua educação.
O jardineiro, que contractára em Lisboa, corria logo, que não se enxovalhasse s. ex.a, elle faria o que quizesse.
Claudio desculpava-se; era para se entreter, que lhe fazia bem á saude.
—Ora essa! dizia o saloio com espanto e admirando a pericia do senhor.
Já tinha tido um patrão que tambem fazia o mesmo, o seu gosto era andar a tratar do jardim, mais era um grande fidalgo, empregado no paço da Ajuda, muito amigo do sr. D. Luiz!