O estudo não o satisfazia. Foi a conclusão a que Claudio chegou no fim d'um anno de residencia em Albergaria.

Talvez questão de ambiente, falta de incitamento pela ausencia de camaradagem adequada... O melhor era a experiencia, o conhecimento directo das cousas e dos homens, sair d'alli, vêr o mundo, os grandes espectaculos da vida, do trabalho, da arte humana e da natureza. Ainda sobrára alguma cousa do mealheiro que o pae lhe deixára, iria correr a Europa.

Começaria pela Hespanha, pelas margens do Mediterraneo passaria a Italia, regressando iria á Suissa, d'ahi pela Allemanha a Moscow, voltaria pela Suecia, pela Dinamarca e pela Hollanda, iria a Pariz e a Inglaterra. Nem valia a pena fazer planos! Dirigir-se-ia a Pariz e faria alli quartel general, centro de todas as excursões.

Escreveu a Jorge, communicando-lhe o seu plano, dando-lhe conta da morosidade com que o seu estudo proseguia e da maneira por que pensava em adeantal-o rapidamente com uma longa viagem.

Veria agora a velha Europa, os paizes de mais antiga civilisação, e ficariam para successivas jornadas o Oriente e a Grecia, a India, o Japão e a America do Norte.

O amigo applaudia. Quem lhe déra poder fazer o mesmo! Mas tinha casado cedo, não podia levar a mulher e os filhos, custava-lhe deixal-os, era contentar com a sua sorte. Passava o verão com a mãe em Loures, o inverno em Lisboa, e as suas viagens duravam habitualmente um dia, dois ou tres em casos muito excepcionaes.

Em Santarem, onde fôra com o Antonio de Mello e o Carlos d'Azevedo, gastára um dia, a jornada a Evora durou tres dias mas já não parava com saudades de casa, como quando veio a Albergaria, onde recebia cartas da mulher que eram um sermão de lagrimas.

Tudo tinha compensações, dizia afinal; se elle, Claudio, tinha a inteira liberdade de dispender o seu tempo e o seu dinheiro, podia instruir-se e alcançar uma vasta instrucção, elle, Jorge, tinha os carinhos constantes d'um lar amado e alegre. Não era aquillo aconselhar-lhe o casamento. Que se instruisse agora, que aproveitasse, e a seu tempo lá chegaria.

Claudio partiu em abril e jornadeou até ao fim de outubro com uma impaciencia desusada. Não parava em parte alguma, com sêde de impressões, uma embriaguez de aspectos desconhecidos propria de quem fôra creado em horisontes estreitos.

Museus, monumentos, costumes, paysagens, tudo observava, registando na lembrança conhecimentos novos.