—Uma hora de caminho! Aquella subida de Villar é enorme e nós viemos devagar. Os seus pobres cavallos vão dizer mal do passeio. Com uma carga d'estas!
—Não, não é muito. Agora vamos depressa. D'aqui a meia hora estamos em Lourosa.
A carruagem ia descendo e o aspecto dos montes modificava-se; a vegetação tornava-se mais basta e os raros casebres dispersos eram construidos de delgadas laminas de pedra schistosa. Dentro em pouco atravessavam Lourosa.
—Então? dizia de cima o Ricardo. Cá o nosso reitor diz que estamos em Lourosa. Para onde nos leva você, ó doutor?
—Não seja impaciente; vá andando, vá andando que não se hade arrepender, respondia Claudio.
—Eu sei lá! Desconfio...
Apenas se passa a aldeia, a estrada perde-se serpeando nos pinhaes bastos e sem interrupção que cobrem aquella região de monticulos e desfiladeiros. Nem a mais pequena planicie; os accidentes do terreno são continuados e dos valles apertados, entre o matto espesso e tenro, solta-se um alento de viço e de frescura. As urzes floriam em quebradiços calices de rosa desmaiada, os fetos espandiam as rigidas frondes reluzentes e nas palidas giestas desabrochavam as suas fulvas e aladas flores.
—Ah! isto sim, isto aqui é outra coisa, disse o dr. Carvalho. Dou a mão á palmatoria. Sim, senhor. Valle a pena vir cá.
—Já vê que não o enganei, respondeu Claudio.
Tinham parado em frente da casa d'um cantoneiro, um pobre abrigo com uma só porta, sem janellas, feito de lageas toscas, quasi sem argamassa, a luz espreitando entre as telhas desunidas. Era ali que esperavam os creados de Claudio que tinham vindo adiante, alta madrugada, para fazerem os primeiros preparativos. Com a mobilia do cantoneiro conseguiram montar a mesa, em baixo, ao pé d'uma fonte, longe da estrada, para fugir aos curiosos, de modo que não fossem vistos de quem passasse. Eram essas as instrucções de Claudio. Estava tudo prompto, dizia um dos creados, para quando s. ex.as quizessem.