—Seja rasoavel, dizia ao Ricardo; são tão poucas as occasiões que ella tem de se divertir...
Intimamente tambem elle tinha vontade de partir; ao deslumbramento das primeiras horas seguia-se uma sensação de fadiga e enfado, uma vaga necessidade de recolhimento e silencio. Porque? Mysterioso cansaço!
Abandonado, a um canto da sala, n'uma soberba cadeira de espaldar, ia seguindo com os olhos Emilia que valsava ligeira nos braços d'um rapaz estroina, todo fresco e risonho de cynismo e de saude. Comparava-a com as outras raparigas e cada vez mais se penetrava da sua gentileza. Até no trajar lhe parecia vencel-as, ella que para vir ali fôra buscar ao seu pobre guarda-roupa as unicas sedas que lá havia, um vestido preto que os paes lhe déram quando casou e uns farrapos côr de rosa com que o enfeitára.
Sahiram pelas tres horas da madrugada. A frescura da manhã, açoutando-lhe as faces, animava-os. Claudio e Emilia vieram conversando até Albergaria. Ricardo ia a dormir, oscillando com as trepidações da carruagem.
—Sim, dizia Claudio a Emilia, tudo isto é magnifico mas o socego dos nossos serões não é peior. Em regra, fico indifferente ás festas a que o coração é alheio; e n'uma multidão d'estas não póde haver intimidade.
—Tudo tem o seu logar. A mim, nada me refresca como um baile; fico bem oito dias, pelo menos. Dá-me saude.
Claudio voltava triste. Emilia julgava-o cansado e elle mesmo queria attribuir a sua inquietação aos effeitos d'uma atmosphera viciada e da excitação do fumo e do movimento. Só tarde pôde conciliar o somno, o corpo abrazado e dorido. Não se lhe varriam dos olhos e dos ouvidos os rumores das vozes e da musica, o brilho rutilante das salas e a imagem de Emilia valsando distraida e fogosa nos braços dos rapazes galanteadores e ousados. Inconscientemente, soffria as primeiras dores do ciume.
Estavamos chegados ao fim de junho. O dr. Carvalho aconselhava Claudio a que não deixasse de ir ás caldas. Só as inhalações das aguas sulphurosas podiam livral-o d'aquella bronchite, dizia. Era o que a sua experiencia lhe tinha mostrado.
Claudio defendia-se brandamente. Estava tão bem... Mas o Carvalho instava. Resolveu partir para as Caldas da Rainha.
No primeiro de julho, por um sol ardentissimo, foi a casa de Emilia despedir-se. Ella nunca tinha estado nas Caldas da Rainha, mas ouvira sempre á gente com que convivia em Lisboa que não havia terra de mais gozo. Todas as noites se dansava; os dias passavam se em continuados jogos e merendas á sombra do arvoredo.