—Embora!... respondia Claudio. Estava aqui muito bem.
E olhava a varzea e os campos d'onde se desprendiam sussurros d'aguas que iam descendo e um alento de frescura, sobre os milhos tenros, mimosos, regados n'aquella noite.
A voz de Emilia e a doçura da intimidade casavam-se com a suavidade da natureza. Teve um instante de desalento; sentiu derramar-se-lhe no corpo, como uma uncção venenosa, um torpor em que a vontade se aniquilava, mas, sacudindo energicamente a tentação, levantou-se, apertou a mão de Emilia com palavras d'um adeus vulgar, e saiu.
Em casa foi abraçar a mãe. Ingenua, resignada, sorridente na paz da sua alma, recommendava-lhe que tivesse cautela, tinha muito medo de remedios. Não gostava de o vêr partir, ficava em cuidados, antes fosse para Pariz.
—Tenho sempre muito medo! dizia.
Partiu. O movimento, a curiosidade da paysagem, as ininterrompidas cambiantes d'aspectos moderavam os movimentos de saudade e quasi lhe davam a illusão do esquecimento.
Depois, ao chegar ás Caldas, a installação, a consulta do medico, os banhos, novas terras, nova gente, cousas novas, trouxeram-n'o durante dois dias n'uma agitação que tomava por contentamento. Apressou-se a escrever á mãe, ao dr. Carvalho e ao Ricardo, referindo o que se passava e promettendo que voltaria ao fim de vinte dias, quando o tratamento tivesse terminado. Teria muito que contar aos serões.
Estava na firme disposição de se associar á vida mundana, assistindo aos concertos, passeiando todas as tardes na Matta, jogando o arquinho com as damas e o whist com a gente grave que Lisboa emprestava por um mez, dançando e galanteiando. Queria tomar os conselhos de Emilia e imital-a, para mais merecer no seu conceito.
A illusão foi breve. Ao fim de dois dias, com desespero e odio, fugia de toda a convivencia, procurava os cantos affastados e ermos para se concentrar nas suas lembranças, e opprimido, ancioso, como um tigre na jaula, revolvia-se na estreita cella que habitava n'uma hospedaria.
A ausencia revelára-lhe o amor. Percebia agora até onde levianamente tinha caminhado. Dissipada toda a duvida, sabia,—com que amargura!—que o seu coração estava preso a Emilia, cuja imagem o acompanhava sempre, sempre, fundindo n'uma só ambição todos os desejos, todas as preoccupações e todas as necessidades.