O serão prolongou-se até muito tarde, Claudio perguntando pelo que se passava em Albergaria e a mãe ouvindo o que era a vida nas Caldas.
—Ai, Senhor! Que dinheiro se gasta n'essas cousas! exclamava. E tanta pobreza por esse mundo...
—E Emilia!?
—Não a tinha visto, mas dissera-lhe o filho, na egreja, á missa, onde o tinha encontrado, que a mãe não saia porque andava um pouco doente.
Claudio estremeceu. O quê?! Ella tambem!... E calou-se um instante, absorvido n'esse pensamento, entre o temor e a alegria.
Bateu uma hora da noite. Era tempo de se deitar, dizia a mãe; precisava descansar, não lhe voltasse a febre.
O filho beijou-lhe a mão e recolheu-se ao seu gabinete, a caminho do quarto em que dormia, que era contiguo.
Abriu a janella para lançar os olhos sobre o jardim. Quantas vezes nas Caldas se lembrara com penetrante saudade d'elle e da sua tranquillidade, a que associava o vulto de Emilia! Vinha do norte uma densa névoa que envolvia as arvores n'uma gaze humida e fresca, das magnolias rolavam gottas d'agua caindo descompassadas sobre as folhas seccas que juncavam a terra, e as aguas rumorejavam sumindo-se nos sorvedouros que atravez da encosta as levavam aos ribeiros. Toda a voz humana se calava, só a natureza cantava o seu infindo e eterno canto.
N'aquella frescura Claudio procurava um balsamo, mas a inquietação abrazava-o, embalde o peito arquejante se dilatava nas auras matutinas. Esperava um somno tranquillo. Entre as nuvens de poeira que o tinham acompanhado ante-gozára o repouso no seu leito, no silencio do seu lar e na alegria de voltar em poucas horas a vêr Emilia; e o silencio não lhe trazia repouso e a frescura não lhe abrandava esse fogo estranho que lhe corria nas veias!
Mentira á sua mãe. Esse pensamento torturava-o. Nunca o tinha feito. Queria affastal-o, procurava motivos que lhe satisfizessem a consciencia. Mentira, é verdade, mas que mal resultava d'ahi? Não fôra só para occultar o seu amor por Emilia? E a quem interessava esse amor senão a elle, a elle só? Debalde! A razão não lograva dominar a dôr que estava ali, como um espinho, cravada no coração, penetrando cada vez mais fundo. Depois, Emilia... que lhe diria, que pensava ella?...