Lembrava todo o passado, os continuados passeios, as palestras intimas, a mutua confissão de todos os cuidados, de todos os bens e de todos os males da existencia de cada um. Muita vez se tinham referido á sua amizade mas nunca entre elles se fallára de amor.

Para Claudio essa illusão terminára. Sabia que a paixão o consumia. Havia de occultar-lh'a porque era uma offensa á sua honra e porque, se ella a adivinhasse, havia de repellil-o com a sua intemerata virtude.

É verdade que a mãe lhe dissera que Emilia tambem adoecera na sua ausencia... Mas não! Era impossivel! Não cabia na sua candura a sombra d'um pensamento criminoso. Criminoso?! Pois era crime o affecto entre duas almas irmãs e o desprezo do homem vil a que Emilia se achára ligada n'um momento infeliz? Convenção estupida contra que a natureza protesta, frageis leis humanas que a vida deroga a cada instante, desmentindo-as e escarnecendo-as!

E todavia não podia libertar-se da duvida! A convicção não lhe empolgava o espirito. Mentira a sua mãe, havia de mentir-lhe todos os dias occultando-lhe o intimo do seu coração, fugiria de todos guardando o segredo de que córava, perseguido pelos phantasmas implacaveis da sua consciencia. A consciencia! Tambem o amor era crime? Que tinha elle com o que o mundo pensava?

Não fôra intencionalmente que procurara aquella mulher, não era seu direito,—lera-o nos livros, aprendera-o nos evangelhos da sciencia!—conquistar todos os bens que a sua força podesse alcançar? A vida era uma lucta. Gloria aos vencedores, vergonha aos vencidos! Queria a sua hora de luctador, queria a sua hora de triumpho, queria as palmas da victoria, elle que tão mal dispendera os primeiros annos da mocidade n'um timido recolhimento. Mas voltava uma onda de amargura... Não, não podia ser! E a honra de Emilia? e o seu nome? e os seus filhos? Que duvida! que angustia!...

Altas horas, adormeceu, prostrado d'este doloroso meditar. O somno foi breve; pela madrugada ergueu-se e desceu ao jardim.

O sol bebia os orvalhos da noite, uma branda aragem do norte varrera a névoa, no ceu azul corriam ligeiras, a perder-se no horisonte, pequenas nuvens alvas e leves. A natureza despertava para a vida, e no renascimento da luz Claudio colhia a sua parte de vigor.

A inquietação da noite fôra um desfilar de phantasmas que iam longe, como as nuvens para que levantava os olhos. Talvez a febre, o cansaço da jornada... Em poucas horas veria Emilia. Havia de occultar-lhe a tempestade por que passara, transformal-a em pura e candida amizade.

Fôra um erro, uma falta, ter mentido a sua mãe. Pezava-lhe ainda, magoava-o. Para o futuro, porém, não teria necessidade de a repetir porque na sua existencia nada haveria que precisasse occultar. Todas as attribulações dos ultimos dias passavam como um sonho mau, e ia seguindo pelas ruas do jardim na embriaguez do leve perfume que as ultimas rosas espalhavam no ar, juncando a terra, desfolhadas e emmurchecidas pelo estio.

Á beira do lago pendia d'um rochedo um jasmineiro; sobre as aguas boiavam as suas flores singelas e brancas. Debruçou-se, ajoelhado na terra e colheu um ramo. Era para Emilia.