Finalmente, ás dez horas, abriu-se a porta da capella da rua da Cruz. Claudio não a conhecia.
Foi preciso que Emilia o guiasse na escuridão, apenas cortada pela escassa luz que vinha da porta lateral que abria sobre os campos e dava passagem para um alpendre da casa de Ricardo.
A capella estava abandonada; servia apenas de palheiro e arrecadação de alfaias de lavoura. Iam sentar-se no degrau do altar-mór, unica elevação que havia no pavimento lageado e raso.
—Tambem alli está um confissionario velho, disse Emilia, mas só tem um assento, o do padre.
—Leva-me lá, respondeu Claudio, quero ajoelhar aos teus pés e pedir-te perdão das minhas faltas.
—As suas faltas!...
—Suas?... Não me chames assim. Parece que me affastas.
Ella sentou-se e Claudio ajoelhou. Estava tremulo e frio, gelado pelas longas horas de espera na estrada deserta e mortificado pelas angustiosas cogitações em que o lançavam as luctas interiores da paixão, as contradições do dever e do desejo, da realidade cynica e das aspirações ideaes. Caíra como prostrado, mudo de emoção, esmagado de duvidas em que a amargura e o contentamento se confundiam n'uma mesma vibração.
Ella estava serena, na simplicidade do amor apartado das complicações d'uma consciencia intelligente e timida. Estava nos braços do amante, que lhe envolviam a cintura, ninguem o sabia, e esta ultima circumstancia bastava a tranquillisal-a. Não havia duvidas intimas; tudo se reduzia a convenções mundanas que, illudidas ou compridas, ficavam sempre igualmente satisfeitas.