Na mesma tarde d'este dia em que tivéra o primeiro annuncio da desconfiança de Ricardo, Claudio recebeu uma carta de Emilia.
O marido partira para Coimbra e ella pedia-lhe que viesse, ás dez horas da noite, a uma pequena capella abandonada que ficava junto á casa, na rua da Cruz, e que com ella tinha communicação interior.
Entregaram a carta a Claudio na presença da mãe, no fim do jantar. Teve de mentir. Disse que era do prior de Villa Nova, a pedir-lhe que fosse lá á noite. Estava com um ataque de gotta e não podia sair.
—Foi-se metter na eleição da junta de parochia e agora ha-de querer que eu lhe dê os votos de Villalva!...
Para se conformar com o que disséra á mãe, saiu ás oito horas. Não era verosimil ir procurar um velho, n'uma aldeia, ás dez horas da noite. E ainda, para retardar a partida, foi preciso inventar uma carta longa a escrever, inaddiavel, que justificasse a permanencia em casa.
Seguiria pela estrada acima, caminho de Villa Nova, e voltaria torneando a villa, a entrar na rua que o levaria em direitura a casa de Emilia; mas, quando chegou ao extremo da villa, eram apenas oito horas e um quarto. Que fazer? Impossivel dirigir-se já á capella; poderiam vêl-o e comprometteria Emilia.
Seguiu para deante. Foi sentar-se n'um logar deserto, á beira do caminho, sobre o parapeito d'um aqueducto, esperando.
Accordava agora do desvario sensual em que todo o dia andara arrastado; a treva, a fadiga, o silencio, o isolamento e a immobilidade forçada despertavam-lhe a consciencia. Era um crime o que ia fazer? Não era; a paixão convencia-o da propria innocencia. A ninguem prejudicava, nem mesmo a Ricardo que fôra o primeiro a abandonar a mulher. Não a roubava aos filhos, para que havia de privar-se do seu amor? Este mundo é uma conquista; queria a sua parte. Mas porque então este sentimento d'amargura á hora em que ia satisfazer-se a sua maior ambição? Mentia e a mentira repugnava-lhe.
Não vira elle o que lhe acontecera com a mãe ao receber a carta? Mentira! Era a voz que sentia echoar pelos despidos cerros dos montes e pelas sombras do olivedo nos valles. Mentira! Mentira!... Olhava em torno. Viria alguem?... Que importava? Quem o sabia? Oh! não, tinha-o escripto na fronte, illuminada por uma luz de remorso. Fôra loucura... Porque não fugiu, porque não se affastou para longe a primeira vez que encontrara Emilia? Emilia!... Quanto soffreria ella tambem?!... Devia-lhe amparo, fôra elle que a tentara na paz da sua virtude, fôra elle que lhe derramara no sangue, como um veneno, aquella pallidez com que a vira nas horas de soffrimento e que se lhe gravaria nos olhos para sempre.
Queria vêl-a, queria abraçal-a,—fortuna suprema! E o amor e a compaixão casavam-se na mesma anciedade.