—Não, não endoideci, respondeu elle tremulo e o rosto congestionado. A culpa é sua, unicamente sua. Fica assim convencida do meu amor?
Já não era o timido que nós viramos soluçante, implorando perdão, por uma calma noite de julho. A cubiça e uma instinctiva mas plena certeza de dominio tornavam-n'o arrogante e despotico. E Emilia obedecia, defendendo-se frouxamente com o temor do escandalo e da sua vergonha, inconscientemente dominada por um ardor de paixão que a fazia acceitar como boas as razões que o amante ardilosamente inventava para a levar a quanto lhe apetecia.
Não valia a religião nem o dever; a culpa era do destino que, tendo-lhe dado um marido repellente e sordido, lhe deparava agora uma alma irmã da sua.
Claudio voltava a casa agitado de contentamento. Todos os escrupulos, todas as preoccupações se baniram ao alento d'aquelle corpo que tivera nos braços, ao contacto d'aquella face cuja impressão sentia ainda nos labios.
A animalidade vencia, a satisfação da carne punha em debandada os terrores da alma transformando-os em deliciosas e captivantes esperanças. Voltaria á rua da Cruz no dia seguinte, á mesma hora, quando Ricardo estivesse na repartição e os filhos na escola. Sequioso dos beijos de Emilia, todo se entregava a essa cubiça absorvente.
Eil-o novamente vagueando entre as flores, n'esse jardim que fôra e seria ainda o theatro das suas inquietações, esperando o bater do meio dia como cavallo fogoso escarvando a terra e mascando o freio, a orelha fita ao toque do clarim que marcará a partida.
Quem lh'a déra ali, por essa tarde de dezembro em que o sol tão brandamente penetrava a terra passando entre os troncos nus das arvores desfolhadas pelo inverno! Iria colher violetas á sombra dos cedros e a meiguice dos seus beijos havia de confundir-se com o perfume subtil e inebriante, o amor a adejar na luz pallida e cariciosa.
Onde estavam as dolorosas duvidas de ha pouco, onde o respeito pela sua amada que havia de pôr no sacrario a que não chegariam as palpitações da concupiscencia impura? Sonhos vãos, vãos propositos! Nem d'isso já se lembrava! Varrera-lh'o da lembrança a chama em que todo o seu ser ardia n'uma transformação gloriosa.
Com que alegria subiu á sala de Emilia!... Mas Emilia vinha triste, os olhos macerados, mysteriosa, perseguida d'um pavôr que nem o anceio de vêr o amante podia dissipar. Não se assustasse Claudio... Ricardo desconfiára, estranhára as visitas áquella hora, ameaçára-a. Tudo porém se poderia arranjar, ella lhe mandaria dizer quando e onde se poderiam encontrar. Depois lhe contaria pausadamente como isso se passára; não se demorasse, saisse quanto antes. Que não se affligisse, ella era a mesma. E abraçaram-se.
Claudio voltou a casa; todo o seu peito entoava hymnos de triumpho. Era sua! A certeza do amor de Emilia vencia todas as atribulações e resgatava todas as dores passadas. O ardor da paixão e a coragem confundiam-se n'um só fogo, impetuoso, subindo para os céos, á serenidade olympica do amor victorioso.