Era meio dia quando chegou á rua da Cruz. Á creada perguntou por Emilia. Estava melhor, já se levantára, até de manhã descera um bocadinho ao jardim.
Subiu ligeiro e contente, alliviado d'um grande peso; entrou na sala que estava deserta, Emilia tardava e por certo já lhe tinha ouvido a voz... Era singular! Ella que sempre corria para elle tão pressurosa...
Decorreram longos minutos, Emilia aproximava-se a passos lentos, compassados, parando a meio do corredor, para dar á creada umas ultimas ordens. Claudio esperava-a de pé, frenetico, movendo-se nos dois passos que medeavam entre a meza e o sofá.
De repente, perpassara-lhe pelo corpo um frio de terror. Emilia vinha para elle com aquella mesma pallidez caracteristica que já um dia lhe conhecera e em que só os seus grandes olhos ficavam boiando como pharoes, em braza, n'uma toalha alva e mate, orlada ricamente pelos mais finos cabellos.
—O que tem? perguntou Claudio afflicto, prendendo-lhe a mão. Estranho-a.
—Não sei, respondeu ella pausada e desprendidamente. Foi apenas uma dôr de cabeça, um pouco mais violenta do que as que costumo ter. Antes fosse uma doença grave! Que faço eu n'este mundo?!...
—Não seja injusta nem cruel com os que a estimam. Se soubesse o que eu tenho soffrido ha algumas horas...
—Não vale a pena. Que falta lhe podia fazer? Haveria muita rapariga fresca e nova que o cubiçasse. Conheço-me. Olhe: ainda ante-hontem vimos uma bem bonita na praça, aquella que esteve ao pé de nós. Não lhe pareceu?
Claudio só então comprehendeu que Emilia ardia em ciume. Correu-lhe o sangue ao coração, seccaram-se-lhe os labios e, como uma féra precipitando-se sobre a preza, lançou os braços em torno da cintura de Emilia, beijando-lhe as faces em convulsões de desejo.
—Claudio, Claudio, exclamou ella, tentando libertar-se, endoideceu?