Contou então todo o drama da sua vida; o primeiro encontro com Emilia, a leviandade com que se lançára na sua conquista, o amor sincero e a paixão que d'ahi resultára, a angustia em que vivia n'uma vida de constante mentira, as tentações que tinha de pôr termo a essas torturas, o receio e a compaixão pela infelicidade da amante, sempre que se lembrava d'uma separação. No fundo, sentia-se torturado de arrependimento e remorsos; a sua felicidade, tão cubiçada dos estranhos que o julgavam satisfeito e impenitente, reduzia-se a uma crudelissima agonia.
Jorge desconhecia essas situações. Casára cedo, por casualidade, cedendo a uma inclinação natural, sem maior esforço da vontade. Não dizia que o casamento fosse bom nem mau; elle tinha-se dado bem e louvava a Deus por o ter feito, pois sabia d'outros casos semelhantes ao de Claudio e todos tinham mau fim.
Lembrava: o Cabral, um companheiro da Universidade, apaixonou-se pela mulher d'um amigo e suicidou-se. O Nogueira, um bom rapaz mas um sceptico, começou a namorar a mulher d'um visinho,—brincadeira!—e a mulher toma o caso a sério, abandona o marido e vem metter-se-lhe em casa. E ahi estava o pobre desgraçado preso provavelmente para toda a vida. Estes eram casos recentes, mas outros aconteciam a cada passo. Elle fugia d'isso. Era quasi ridicula tanta felicidade conjugal, bem o sabia, mas ao menos que descanço!...
De resto, Jorge não se atrevia a aconselhar qualquer resolução. O tempo a indicaria. Era sempre uma loucura querer substituir inteiramente o destino e a sorte pelas inspirações da vontade. Parecia-lhe até uma falta de humildade, desmedido orgulho. Demais, o peccado não era grande. Tinha amores com uma mulher casada cujo marido a deixava a cada momento por uma amante?... De quem era a culpa? As cousas do mundo não se podiam tomar todas em casos de consciencia. No bom senso vulgar havia muito de razão e justiça.
Pensava Claudio que, se amanhã fosse á pharmacia e contasse aos companheiros d'outro tempo o que lhe succedia, alguem tomaria a serio as suas duvidas? Todos se ririam. Ridiculo, n'aquella comedia, só o Ricardo. Era a boa tradição e, quem sabe? talvez a boa regra. Afinal, o amante era vencedor. Por conseguinte, dormisse descansado e levasse as cousas alegremente. O tempo, o tempo lhe diria o que tinha a fazer. Não havia de tardar... que aquelle viver aborrecia.
Jorge voltou a Lisboa sem deixar no espirito de Claudio outra impressão, além da tristeza em que caia comparando-se com elle.
Aquelle sim, aquelle soubera viver! Voltava a casa aos braços da mulher e dos filhos, a um ninho de caricias e de affectos de que abertamente e tranquillamente podia fartar-se, isento de toda a duvida, livre de todo o remorso.
Porque não fizera elle o mesmo? Porque se lançára n'uns amores que a consciencia lhe condemnava, fossem quaes fossem as razões que o espirito buscasse para os legitimar? E porque não havia de emendar-se? Porque não havia de converter Emilia ao dever, como elle mesmo se tinha convertido? Ella seria então a primeira a desejar o seu casamento, a desejar vêl-o emendado d'uma vida de mentira, olvidando o passado, que pelas suas amarguras lhes serviria a ambos de lição, para os affastar de nova queda. Assim resgatariam, em longos annos de honestidade, a breve loucura d'algum tempo. Corajosamente, sem lagrimas, com a risonha serenidade da virtude, apartar-se-iam. Quanto a vida lhes seria então suave e boa!
Isto pensava, isto pensou durante alguns mezes sem se atrever a communical-o a Emilia. Temia a impressão que havia de lhe produzir a lembrança do abandono do amante, seu unico amparo, a sua unica alegria, d'ella que ninguem tinha no mundo, entregue ao marido que a desprezava, perdida no mais arido ermo de carinhos.
O receio e a compaixão traziam-n'o em mentira; ia addiando, addiando sempre a hora d'uma confissão que imaginava o seu dever e salvação e de que todavia tremia, não por elle que a tudo estava d'antemão resignado mas por Emilia que já então sabia ser moralmente fragil, inconsistente.