Pelo S. João foram, como de costume, a Coimbra, a casa dos Albuquerques. Claudio ia contrariado, absorvido, como andava, em preoccupações moraes que o traziam n'um permanente desejo de recolhimento; mas Emilia, em rapidas fulgurações, mostrava ainda todo o seu antigo ardor pela futilidade elegante.
—É mais uma occasião que tenho de te vêr de casaca e gravata branca, e assim é que ficas bem. Mas vê como te portas... Ha por lá muita menina bonita!
Era a recommendação habitual, quando partiam para essas festas.
D'esta vez, Emilia veiu de Coimbra preoccupada e distrahida, fallando a custo e evitando os olhos de Claudio. Este já não se illudia com taes modos e gestos; por muito frequentes os conhecia. Eram ciumes. Quantas horas afflictivas passára na capella da rua da Cruz para affastar essas tempestades que eram uma das dores com que a leviandade de Emilia sobrecarregava a sua atroz situação!
Antecipadamente sabia o que seria a sua primeira entrevista depois do baile, toda consagrada a explicações e a mentiras. Mentiras? Sim, mentiras. Emilia tinha razão. Claudio em toda a noite não tirara os olhos de Laura, uma filha do velho Albuquerque, cheia de graça e de candura, valsando com uma travessura infantil.
Seria mais um remorso, havia de mentir-lhe, havia de a convencer de que era sempre a victima dos seus zelos infundados, mas era certo que Laura lhe deixára uma impressão profunda, e vagamente, com uma tenacidade perigosa para os amores de Emilia, pensava em que talvez estivesse ali a sua salvação. Seria um capricho dos sentidos, o encontro casual d'um temperamento ardente e d'uma natureza nervosa, uma surda concupiscencia? Talvez não. Laura era uma rapariga educada em ociosidade absoluta, sem a minima instrucção, sabendo com segurança apenas valsar, brincar e montar a cavallo e a Claudio, burguez por habito e por educação, d'uma delicadeza moral doentia pela aturada insistencia dos problemas da sua vida, repugnava uma existencia tão vasia e inutil.
Qualquer cousa ignorada o atraia, porém. Tambem aqui o espirito e a reflexão não lograram vencer o sentimento.
Ouem podia saber a verdade? Quem podia dizer-lhe o que se abrigava n'aquelle corpo de creança? Talvez um coração apaixonado, uma d'estas mulheres que se consomem n'um só amor.
A imaginação representava-lhe prazeres infinitos, n'um lar todo illuminado por essa luz de sacrificio. Havia de a dominar pelo amor, havia de banir dos seus desejos os habitos de ociosidade. Ella seria bondosa, ingenuamente amoravel; não era uma rapariga prevenida e, quando tivesse amamentado um filho, quando tivesse vivido n'uma atmosphera de labor e de virtude, a esposa da sua alma revelar-se-ia.
Depois, se errasse nas suas esperanças, tambem saberia mandar a quem não soubesse amar. A herança paterna, o homem sevéro e frio, accordaria.