Mas Emilia, Emilia?... A sua falta pesava-lhe então n'uma fadiga e n'um desespero invenciveis; entre o desejo de sair d'uma vida, a seus olhos criminosa, e a ambição duma vida normal, cavava-se um abysmo innundado de lagrimas que era precioso transpôr. Recuava. Nunca! Pobre Emilia...
Ás vezes, sobre o conflicto d'aspirações passava uma onda de scepticismo. Laura, Emilia, o casamento, o adulterio... phantasias! Fugisse d'ali, fosse viver em Lisboa, não poupasse ao seu corpo todas as delicias que a fortuna lhe consentia. Mas o dever dominava-o, não havia modo de se libertar, n'uma vida facil, d'essa pesada escravidão a que desde a infancia fôra votado.
Outras vezes, esquecia Emilia. Laura apparecia-lhe como uma visão de candura, o anjo que lhe annunciava a paz, e caia na tristeza da infinita saudade das cousas cubiçadas e impossiveis.
Queria aquecer-se ao sol da sua ingenuidade e da sua fé, beber na sua simplicidade um alento purificador. Loucura! A felicidade fugira-lhe para sempre, de tudo poderia curar-se menos do remorso, a vása de todas as almas delicadas, a toldar-lhes o mais pequeno movimento. Só o dever seria a sua ambição; deixasse como um forte, por justo castigo da sua culpa, os sonhos de felicidade. Loucura ainda! Dever, felicidade, que estranhas vozes eram essas?
Luctar era bom para quem tinha os favores do destino. Elle não; vinha batido dos erros e contrariedades e só na escuridão da terra encontraria repouso.
Comprehendia agora. E pensava na doce paz do cemiterio e nas flores que haviam de lhe cobrir a sepultura.
Nova loucura! O suicidio era um crime. Não lh'o ensinára sua mãe?!...
Iam decorridos oito dias sem que Claudio tivesse voltado a casa dos Albuquerques, como costumava depois dos bailes, por obrigação de cortezia. O seu desejo de tornar a vêr Laura ficava aqui prejudicado pelo receio d'um novo accesso de ciumes de Emilia.
Por fim, uma tarde, ou por mais animado ou por indifferente e fatigado de tanto meditar, metteu-se na carruagem e partiu.
A visita foi curta; pouco pôde fallar com Laura.