«O Snr. D. Miguel reconheceu os emprestimos feitos para debellar os principios que o elevaram ao throno; a Snr.ª D. Maria não quiz reconhecer nunca o emprestimo do Snr. D. Miguel contrahido para matar a fome aos empregados publicos.
«O Snr. D. Miguel tinha captado de tal sorte o amor dos soldados, que apesar de rotos, descalços, famintos, e quebrantados de uma lucta tão prolongada, quebravam as armas que os estrangeiros vinham arrancar-lhes das mãos; a Snr.ª D. Maria tem contrariado de tal modo os sentimentos do paiz, e alienado as affeições dos seus mesmos, que em todas as contendas vê rarear as suas fileiras de soldados que vão engrossar as dos contrarios.
«O Snr. D. Miguel tinha e queria sómente os empregados necessarios; a Snr.ª D. Maria consentiu que se arvorasse ametade do reino em empregados para devorar outra ametade.
«O Snr. D. Miguel fez-se idolatrar a tal ponto do povo, e do exercito, que até os seus mesmos adversarios o reconheciam a ponto de lhe cantarem:
Quanto mais a fome aperta
Mais se canta o rei chegou:
e não tem bastado a longa ausencia de dezesete{11} annos para destruir as affeições e esperanças dos portuguezes; a Snr.ª D. Maria tem-se feito detestar dos seus mesmos, e o que é maior desgraça ainda o seu nome está sendo coberto de improperios.
«O que se tem dito do Snr. D. Miguel, diz-se de todos os monarchas decahidos; porém o que se diz da Snr.ª D. Maria, diz-se de pouquissimas rainhas no throno.
«O Snr. D. Miguel, quando viu que a lucta só concorria para derramar sangue portuguez inutilmente, e acarretar desgraças inevitaveis ao paiz, porque parte da Europa dormia á beira da abysmo, e a outra parte estava colligada contra elle, convencionou em Evora-Monte, estipulando que se respeitasse a vida e propriedade dos seus, e que se lhe désse a elle, que de tudo era privado, uma parca subsistencia; quem governava pela Snr.ª D. Maria, desconheceu logo a convenção que tambem fôra assignada pela leal Inglaterra—condemnou ao ostracismo e á fome o Principe generoso e uma grande parte da nação portugueza—fez derramar ondas de sangue portuguez, e com a nefanda lei das indemnisações esbulhou da propriedade quem a tinha—a Snr.ª D. Maria acceitou a herança de todos estes maleficios, e consentiu que continuassem—applicou-os depois aos seus mesmos, e pretende conservar-se no throno a risco de perder a dynastia.{12}
«O Snr. D. Miguel rejeitou as propostas de Christina Munhoz de fazer entrar o exercito de Rodil em seu auxilio, e de o casar com uma sua irman se mandasse sahir D. Carlos de Portugal; a Snr.ª D. Maria não só tem acceitado todas as propostas para se firmar no throno, se não ainda as tem deprecado, subindo até lá nos braços de Rodil e Parker, e sendo sustentada por Concha e Maitland, executores, do famoso protocollo, e se os estrangeiros se não oppozerem agora á sua sahida, e ella se verificar, como dizem, são os portuguezes quem a poem fóra a contento do clero, nobreza e povo!
«O Snr. D. Miguel não gastava ao thesouro annualmente acima de 20 contos de reis; a Snr.ª D. Maria gasta ao misero e defecado Portugal 365 contos de reis por anno, e ainda 100 contos para seu marido, afóra as dezenas e dezenas de contos para seus filhos.