Ign. .............. Eu desfaleço!... Desgraçada!... Onde queres conduzir-me?
Ped. Se necessario for, ao fim do Mundo: A meu lado segura, em qualquer parte Seremos venturosos; ermas grutas, Morada simples de prazeres puros, Mais gratas nos serão que aureos Palacios, Habitação fatal dos males todos.
Ign. Que me propões, Senhor! A voz me falta...
Sanc. Ah, Principe! Contempla o precipicio Em que vás despenhar-te, e a que me arrastas. Responsavel por ti...
Ped.. .............. A nada attendo.(26) Podes tombem, querendo, acompanhar-nos. Sim, eu te rogo, vem... De cãs coberto Tens conhecido assaz o ar pestilente, Que nas Côrtes costuma respirar-se, Halito venenoso, que derramão A traidora lisonja, a fraude, a intriga, Que em torno aos Solios quasi sempre girão. Longe de tanto horror, ah, vem ao menos Gozar em paz o resto de teus dias.
(26) Para D. Sancho.
Sanc. Feliz eu, se hontem fosse o derradeiro! Ah! Querias que proximo ao sepulchro Fosse ao meu Rei traidor? Que concorresse Para hum tal desatino?.. Eu, que incumbido Da tua educação (funesto emprego) Por elle mesmo fui, socio seria Em teus crimes, soffrendo que infringisses Teu dever!...
Ped. ....... Qual dever? Fúteis chimeras! O primeiro dever he ser ditoso, He seguir d'alma o natural instincto. Vamos, querida Ignez.
Ign. ............... Oh Deos! Que trance! Frenetico... ai de mim!.. Que premeditas? Teu nome, tua gloria offuscar queres? Seria a triste Ignez tão desgraçada, Que, origem de teus crimes, tolerasse A infamia de te ver por seu respeito A Patria abandonar, e o Throno excelso?.. Ah, que diria o Mundo...
Ped. .................. Que diria? Que o esplendor do Solio não deslumbra Huma alma como a minha. Eu nada perco Em deixa-lo por ti, não, cara Esposa; Vale mais ser feliz, que ser Monarcha.