D. Affonso.
Que afflicção, que tumulto n'alma sinto! Vacillante, confuso, atribulado, Mal posso respirar. Ceos! que tormento! D'hum lado a compaixão, d'outro a Justiça... Formidavel Justiça! Em fim venceste. Satisfeito estarás, dever tyranno... O supplicio de Ignez... Oh Deos, e pude, Tremendo, subscrever da sua morte A rigida sentença!.. Eu me horroriso: Dentro em meu coração queixosas sinto Bradar a compaixão, e a natureza... Que! surdo á sua voz, consentir devo, Que á morte, a meu pezar, severamente Seja a Mãi de meus Netos condemnada? E por que crimes? Por amar meu Filho? Ah, não: he tempo ainda; revoguemos A sentença cruel... Porém que faço?.. O público socego, o bem do Estado, O popular clamor, o exemplo, tudo, Tudo em fim contra a triste me constrange, E me estorva o prazer de perdoar-lhe, Ah, dura condição! Pezado Sceptro, E haverá quem dos Reis inveje a sorte? Tormentoso lugar, terrivel Solio, Assento d'afflicções, e de amarguras; Desgraçados aquelles que te occupão!
Scena II.
D. Affonso, e D. Sancho.
Sanc. Ah Senhor! Se teu filho inda te he caro, Se não queres privar os Lusitanos Do herdeiro Augusto de teu Throno, e gloria; Não percas tempo, evita, remedeia A desesperação que o assassina. Eu conter já não posso os seus transportes, Nem ver as afflicções que o despedação: Humas vezes convulso, delirante, Scintilando furor, acceso em raiva, Morde, intenta romper os duros ferros Da prizão, que o retem; blasfema, e brama: Consternado outras vezes, abatido, Em profundo lethargo, entre agonias, Os olhos razos d'agua, o peito anciado, Succumbe á sua dor, cahe, desfallece. Eis que subito agora por mim chama: "Vai, amigo, (me diz) corre apressado, Saber da minha Esposa, e de meus filhos. Certamente os perversos Conselheiros Ousárão conspirar contra os seus dias: Ah, procura meu Pai, por mim lhe falla; Por mim de Ignez o indulto lhe supplica; O estado em que me vês lhe representa; E se elle persistir inexoravel, Protesta-lhe por mim..." Ah! nem me atrevo A referir-te...
Af. .......... Basta: não augmentes A minha confusão: oh Deos!
Sanc. ................... Perdoa: Tu silencio me impões; mas eu não posso, Não posso obedecer-te; o grande risco, Em que os dias do Principe contemplo, O amor que lhe consagro, não permittem Que eu cesse de clamar-te que perdoes Á miseranda Ignez, de cuja vida A vida de teu filho está pendente. Ignez já agora he de D. Pedro Esposa... É até digna de o ser. Não acredites Damnados corações; que seus contrarios, D'inveja, d'ambição, de rancor cheios, Intentão denegrir o seu caracter. Vê, meu Rei, que te illudem: crer-mo deves Por meus labios fallou sempre a verdade. Ignez huma alma tem singella, e nobre, Sensivel de sobeja, a amar propensa; Não pôde resistir a amar teu filho: Seu delicto he só este, não tem outros; D'outros não he capaz, e hum tal delicto, Quando tantas virtudes o acompanhão, He digno de perdão, he desculpavel.(48) Perdoa-lhe, meu Rei, não diga o Mundo, Que inflexivel, severo em demasia, Nem de teu filho á Esposa perdoaste.
(48) Prostra se aos pés de D. Affonso.
Af.(49) Não, não ha de dizer.(50) Oh lá, D. Nuno!(51) Deixar eu de ser Pai por ser Monarcha?.. Ah! Não.
(49) Depois de pensar hum pouco.
(50) Chamando para dentro da Scena.
(51) Comsigo mesmo.