Nun. .............. Debalde Á misera e mesquinha perdoaste: De seu preclaro sangue sequiosos, Os Ministros crueis se antecipárão...
Af. Oh detestaveis, sanguinarios monstros! E podestes... acaba.
Nun. .............. Mensageiro Da piedosa faustissima noticia, Á Camara de Ignez veloz caminho; Pouco distante ja de seus lamentos Parece, que as abobadas gemião: Accelero inda mais ligeiros passos, E ao tempo que os crueis descarregavão Sobre o peito d'Ignez os duros golpes, Entro... (que horror!) perdão, perdão, exclamo: Á palavra perdão os impios tremem, E até da mão os ferros lhes cahírão: Em vão porém; que o sangue já corria. Servírão só meus gritos de que fosse A ferida talvez menos profunda. Então Coelho, e Pacheco, estatuas ambos, Como espantados do seu crime horrendo, Sem proferir palavra largo tempo, Olhando hum para o outro espavoridos, Apenas a final dizer podérão: "Não ha mais que hum recurso; eia, fujamos;" E subito os crueis desapparecem. Ignez desfallecida, mal ouvíra Que tu lhe perdoáras, levantando As mãos aos Ceos, e os macerados olhos, Mil vezes te bemdiz, por ti mil vezes Aos Ceos envia fervorosas preces. Cheia de gratidão, inda o seu rosto Entre as sombras da morte parecia Que ao proferir teu nome s'alegrava; Em quanto as tristes Damas, que a rodêão, O sangue de seu peito estancar buscão, "Por ultimo favor (lhes diz) imploro, Que á presença d'Affonso me conduzão; Inda quero ir beijar-lhe a mão clemente, E a seus pés expirar agradecida." C'os filhinhos ao lado a malfadada, Buscando-te, Senhor, para estes sitios Já com tremulos passos se encaminha.
Af. Oh destino!.. Oh fereza!.. Infeliz Castro!.. Filho infeliz!.. Mais infeliz do que ambos, Atribulado Pai!.. Todos os males, As furias, as desgraças, e os remorsos Desde o berço ao sepulchro me acompanhão. Nasci para flagello dos humanos, Para opprobrio nasci da natureza: Portugal, dos seus Reis na clara historia, Chamará com razão ao quarto Affonso Máo Irmão, Filho ingrato, e Pai tyranno. O culpado sou eu de Ignez na morte, Eu que, pelos perversos enganado, Tarde o grito escutei da humanidade. Ah! fujamos, fujamos destes sitios, Que a vêr a desgraçada não me atrevo... Mas ai de mim!.. As forças me abandonão: Eis ella chega... Amigos, soccorrei-me: Affastai-me daqui...
Scena VIII.
Os mesmos, Ignez, os dois meninos seus filhos, Elvira, e duas Aias.(55)
(55) As Aias sustentão Ignez, que vem ferida.
Ign. Ah!.... Não me fujas... Não me fujas, Senhor... toma os teus Netos... Para t'os entregar, agonisante, O Maternal amor aqui me arrasta... Tristes orphãos, adeos... Adeos, meus filhos... Nas tuas mãos, Senhor, os deposito... Em teu bom coração abrigo encontrem... Ampare-os seu Avô, já que a Mãi perdem... Possão elles hum dia, de ti dignos, Dignos filhos do Pai mais virtuoso, Com virtudes iguaes, egregios feitos, Compensar-te o perdão, que me outorgaste... E por ultima graça me concede, Que inda antes d'expirar meu Pai te chame.
Af. Chama-me o teu algoz: não queiras dar-me O doce nome que me não compete: Bem quizera eu tambem chamar-te Filha:.. Mas não me atrevo, não; a Natureza, Se visse por meus labios profanado Nome tão deleitoso, estremecêra... Teu sangue está bradando; tu só deves O cruel detestar, que te assassina; Mas bem vingada estás; mais desgraçado Mil vezes do que tu, mil mortes soffro. Ah, poupa ao teu verdugo o horror de ver-te Exhalar d'alma os ultimos arrancos... Eu vou, sim, porque até minha presença Deve ser a teus olhos odiosa.(56) Ninguem me siga, ah, não; deixem-me todos, Fujão todos de mim; quero esconder-me A todos os viventes, té que possa Nos abysmos sumir-me para sempre.(57)
(56) Vai a partir, e vendo que D. Nuno o quer acompanhar, volta-se, e diz:
(57) Parte arrebatadamente.