Ign. Não prometeste ha pouco á tua Esposa Conceder-lhe o favor que te pedisse?
Ped. Vê pois quando não posso comprazer-te, Se terei razões justas que me estorvem De obedecer a hum Pai!
Ign. ................ Não póde have-las.
Ped. Tyrannos... que nos julgão seus escravos!(6) Para nos flagellar o ser nos derão!
(6) Sem attender a Ignez, transportado.
Ign. Tu me fazes tremer.
Ped. .................. Sabe em fim tudo. Affonso, e o Monarcha de Castella Acabão de firmar a nova alliança, Em que sem meu consenso contratárão, Qu'eu daria a Beatriz a mão de Esposo: Para este fim á Corte sou chamado. Affonso, não contente da violencia Que ao meu coração fez, quando forçado De rôjo me levou ante os altares Para unir-me a Constança em laço eterno, Pezado laço, que rompeo a morte; Não contente de haver sido o motivo De... Mas que digo? Não, ah! não foi elle; Eu em lhe obedecer fui o culpado: Que desenfrêe agora as suas iras; Que rogue, que ameace; mesmo quando Em secreto Hymenêo não estivessem Ligadas para sempre nossas almas, Debalde intentaria submetter-me A hum jugo que a vontade recuzasse, Reconheço porém que a pertinacia, O despotico orgulho de seu genio, Sem que attenda senão ao seu Tractado, Quererá que por força o desempenhe. Não convém descobrir nosso consorcio; E outra escusa qualquer que eu fosse dar-lhe D'irrita-lo inda mais só serviria. Agora julga pois se partir devo. Se me devo ir expôr, talvez... quem sabe! A faltar-lhe ao respeito inteiramente... Mas tu choras?.. Que vejo!.. Acaso temes?...
Ign. Nada temo por mim, por ti só temo: Sim, quando vejo sobranceiros males, Por desditoso amor originados; Quando vejo engrossar a tempestade, Que me denota proxima ruina; Nem por isso me assusto: o que me afflige, He vêr hum Pai, hum Reino, e o proprio Esposo, Tudo por meu respeito alvorotado. Em situação tão ardua, e tão penosa, Té chego a desejar... (infeliz Castro!) Que o sacrosanto nó que a mim te prende, Este laço tão doce, e desejado, Dos bens o maior bem que Ignez possue, A ser possivel, hoje se rompesse, Só porque tu podesses livremente Obedecer a hum Pai, fazer ditosos Por hum feliz consorcio dois Imperios. Muito embora Beatriz te possuisse... Mas que digo? Ai de mim! Nos braços d'outra!.. Nos braços d'outra vêr o amado Esposo! Ah! não... não posso tanto, antes a morte.
Ped. He teu meu coração, será teu sempre. Os laços de Hymenêo são as mais debeis Prizões que a ti me ligão. Quando amamos, Desnecessarios são ritos, promessas: Mais força tem amor que os juramentos. Inda que ante os altares sacros votos De permanente fé, de amar-te sempre Não tivesse a teu lado proferido, Seria sempre teu, sempre te amára; Sem que jámais podesse força humana Separar corações, que amor uníra.
Ign. Mas que, talvez em breve sopeados, Aos golpes da politica succumbão.