[324] Mervelleux Memoir. instr. tom. 1. p. 216.
[325] Mariz Dialog. 3. cap. 6.
CAPITULO XII.
Das Moedas de ouro, prata, e cobre antigas; e modernas, que se tem lavrado em Portugal.
1 As moedas mais antigas, de que ha noticia em o nosso Reino, saõ as do famoso Sertorio, Capitaõ Romano, o qual vindo a Portugal no anno 83 antes de Christo com o projecto de se fazer senhor de Hespanha, mandou bater moedas. Tinhaõ de huma parte esculpido o seu rosto de meyo perfil, e da outra banda a figura de huma corça, como offerece huma estampada o erudito Chantre de Evora Manoel Severim de Faria.[326] Era ella de prata do tamanho de seis vintens, e semelhante a esta foraõ achadas outras. Foy isto muito antes dos Imperadores Romanos.
2 Com a morte porém de Sertorio, ficando a nossa Lusitania reduzida a Provincia sujeita ao Imperio Romano, o dinheiro que entaõ corria nestas partes, era o mesmo de Roma; e ainda que se achaõ algumas moedas daquelle tempo abertas em algumas Cidades, e terras nossas, era por especial privilegio dos Imperadores, dos quaes se tem descuberto em todas as nossas Provincias muita quantidade das de ouro, prata, e cobre, como referem o mencionado Severim, e outros.[327]
3 Acabado o Imperio dos Romanos, seguiraõ-se os Godos; e desde o anno 411 de Christo até o de 570, que he o em que governou Leovigildo com poder absoluto, tambem naõ ha memoria de moeda alguma. De Leovigildo até D. Rodrigo, ultimo Rey Godo, achaõ-se algumas, ainda que mal abertas, de ouro, e prata, como as expressa o allegado Severim no §. 3. Fr. Bernardo de Brito diz, que no tempo do Rey Godo Flavio Recaredo, o qual morreo pelos annos de Christo 601 havia moedas de ouro, e prata batidas em diversas partes da Lusitania; e que além da que refere Ambrosio de Morales batida em Evora com seu rosto de ambas as partes, e a letra de seu nome com a outra ELBORA. JUSTOS; conservava elle em seu poder outra de ouro baixo com seu rosto esculpido grosseiramente, e no reverso huma Cruz com esta letra OLISBONA, PIUS. Donde se deixa ver, que havia em Lisboa officina de bater moeda em tempo deste Rey. Tambem diz que vira outra do Rey Svintila, de ouro, batida na Cidade de Evora, com seu rosto de huma parte, e ao redor SVINTILA REX: da outra banda huma Cruz com esta bordadura: EBORA VICTOR. Vencedor em Evora. Sem embargo de que o Padre Argote diga, que naõ vira em Author algum moeda de prata do tempo dos Godos.[328]
4 Seguiraõ-se depois os Mouros no anno de 714, ou 716, e introduziraõ as suas moedas por toda a Hespanha em todos os tres generos de metal, ouro, prata, e cobre, de que se tem achado ainda algumas, principalmente no Alentejo, e terras do Algarve, e nós vimos bastantes de prata com certos caracteres Arabicos, que se descubriraõ em Loulé. Hum dos dinheiros, de que usavaõ os Mouros, era chamado Maravedi, e permaneceo tanto em Hespanha, que até o reinado delRey D. Fernando I. de Leaõ todas as computações das contas se faziaõ por maravedis, assim como nós as fazemos agora pela valia de reis. Pouco depois se estabeleceo a Monarquia Portugueza com Reys proprios, e das moedas, que estes mandaraõ lavrar, e das que presentemente correm, faremos huma resumida memoria pelo estylo, que observamos.
5 Alfonsim. Esta moeda mandou lavrar ElRey D. Affonso IV. que delle tomou o nome, com o consentimento do Clero, e Povo.[329] Era de tres qualidades, cobre, prata, e ouro: o Alfonsim de cobre valia pouco mais de hum real dos nossos: o de prata era do tamanho de hum tostaõ, e valia pouco mais de quarenta reis. Tinha de huma parte sobre o nome Alfo huma coroa, e por baixo do nome delRey havia humas, que tinhaõ a letra L, por serem abertas em Lisboa, outras a letra P, por serem feitas no Porto, e pela orla tinhaõ esta inscripçaõ: Adjutorium nostrum in nomine Domini. O mesmo se lia da outra parte, onde estavaõ os cinco escudos do Reino postos em Cruz. O Alfonsim de ouro valia quinhentos e tantos reis.[330] Todas estas moedas tinhaõ o mesmo cunho.
6 Aureo. Foy moeda, que correo no tempo delRey D. Sancho II. pelos annos 1240, como se acha em escrituras publicas. O Reverendo Padre Fr. Francisco de Santa Maria em hum Tratado, que fez das moedas de Portugal, e anda incorporado no tom. 4. da Historia Genealogica da Casa Real a pag. 261. he de parecer, que esta moeda fosse daquellas mesmas dobras de ouro, que fez lavrar ElRey D. Sancho I. com a sua figura armado a cavallo, com a espada na maõ, e a letra: Sancius Rex Portugaliæ de huma banda, e da outra os cinco escudos em Cruz, que nós chamamos quinas, e dentro em cada hum cinco dinheiros naõ mais, e a letra à roda: In nomine Patris, & Filii, & Spiritus Sancti. Amen;[331] e sendo esta tal moeda, valia o tal Aureo pouco mais de cento e vinte reis da nossa moeda corrente, e he a mais antiga, que se acha no Reino.
7 Barbuda, ou Celada. Foy moeda de prata muito ligada, que mandou lavrar ElRey D. Fernando com o valor de 36 reis. De huma parte tinha hum capacete com viseira, e peito de malha, a que tudo chamavaõ Barbuda, ou Celada, donde tomou o nome, e em cima huma coroa, e pela orla da moeda a letra: Si Dominus mihi adjutor, non timebo: da outra parte huma Cruz da Ordem de Christo, que tomava todo o vaõ, e no meyo da Cruz hum escudo pequeno com as quinas de Portugal, e nos angulos da Cruz quatro castellos, e em roda a letra: Fernandus Rex Portugaliæ, Alg. No tom. 4. da Historia Genealogica da Casa Real vem aberta a sua figura, cuja circumferencia se póde ver melhor, que por informaçaõ dos Authores, os quaes discrepaõ muito nas medidas da sua grandeza.