[371] No Espelho da Eloquencia §.7. n.4.
[372] Molina liv. 2. de la Nobleza de Andaluzia p. 273.
[373] Bembo nas Pros. pag. 10.
[374] Sever. de Far. Disc. var. disc. 2. p. 85. Brandaõ na Monarq. Port. liv. 16. cap. 3.
[375] Veja-se o tom. 1. das Cart. Famil. de Francisco Xavier de Oliv. Cart. 7. p. 54.
CAPITULO XIV.
Do Genio, e costumes Portuguezes.
1 Hum dos pontos mais precisos, e uteis, que se costuma sinalar no assumpto Geografico, he a informaçaõ, e pintura dos genios, usos, e inclinações das gentes de qualquer Paiz:[376] por isso depois de ter dado noticia do material do sitio, qualidade, abundancia, e outras especies memoraveis do terreno Portuguez, como primeira base do nosso intento, segue-se expôr as propensões naturaes, e costumes de seus habitadores.
2 E se nós houveramos de deduzir esta informaçaõ desde a raiz de sua primeira origem, e segundo a examinou diligentemente Estrabo, (que por agora omittimos,) com serem os primeiros Portuguezes povos incultos, e agrestes, nem por isso veriamos as suas condições taõ barbaras, e intrataveis, que presentemente nos pudessemos envergonhar de serem elles nossos progenitores.[377] Com a melhor cultura, e Religiaõ se melhoraraõ alguns abusos, que depois se foraõ alterando com a entrada de outras nações; mas como os ramos naõ degeneraõ da substancia do tronco, nenhuma se atreveo até agora a questionarnos o esforço, espirito, valentia, e gloria militar.
3 Esta primeira prerogativa, e brazaõ, que como herança alcançaraõ os Portuguezes de pays a filhos sempre com a mesma honra, que os antepassados, se acha soberanamente acreditada, e expendida nos Annaes, e Historias do mundo em todos os seculos. Diodoro Siculo affirmou,[378] que os Lusitanos eraõ os homens entre os Hespanhoes os mais fortes, e valentes. O mesmo conceito ratificaraõ Vegecio, Plutarco, Tito Livio, Valerio Maximo, e outros muitos Authores antigos, e estranhos, com quem os modernos se conformaõ,[379] cujos testimunhos, e ditos naõ referimos por extenso, por ser este hum ponto de mayor grandeza, e indubitavel.
4 Só he preciso conhecer que o caracter desta valentia naõ he furor, que offusca o juizo, mas sim hum valor virtuoso, que obra por impulso da razaõ. He hum natural movimento, que, segundo a opportunidade das acções, sabe sempre usar com bizarria. Como todo o Portuguez, só estima o apreço da honra, despreza qualquer perigo para o conseguir. Este brio, e alento intrepido faz ser aos Portuguezes homens de ferro para o trabalho marcial, commettendo, e executando façanhas, que tem mais de verdadeiras, que de verosimeis, e conforme disse nosso Poeta,[380] excedem as sonhadas, fantasticas, e fabulosas, que as estranhas Musas tanto souberaõ engrandecer.