5 A Lealdade a seus Principes soberanos he outra admiravel prenda, de que só os corações Portuguezes podem blazonar com grande singularidade. Todas as Chronicas do mundo, se bem repararmos, estaõ salpicadas do sangue de parricidios, e inconfidencias dos vassallos para seus Reys; só da naçaõ Portugueza naõ consta que faltassem já mais à fé promettida de seu verdadeiro Soberano. Foy observaçaõ do doutissimo Thomás Bosio,[381] natural de Gubio, Cidade de Urbino, e de outros gravissimos Authores.[382] Ardem os Portuguezes no amor do seu Rey, e com esta preclara segurança triunfaõ nossos Monarcas de todo o receyo, podendo-se chamar Reys naõ de vassallos, mas de filhos.[383]
6 Com as dilatadas viagens das Conquistas acabaraõ elles de confirmar, e appropriarse a virtude desta fiel obediencia, e respeitosa constancia, sem ser possivel desviallos, ou arrancallos em obsequio della ainda os immensos trabalhos, e perigos, que padeceraõ, (e padeceráõ, quando a occasiaõ o peça,) de climas encontrados, e asperos; de fomes, sedes, frios, e traições malevolas de inimigos. Foy o que disse Vasco da Gama por boca do nosso famoso Poeta[384] ao Rey de Melinde:
Crês tu que se este nosso ajuntamento
De Soldados naõ fora Lusitano,
Que durara elle tanto obediente
Por ventura a seu Rey, e a seu Regente?
Crês tu que já naõ foraõ levantados
Contra seu Capitaõ, se os resistira,
Fazendo-se piratas obrigados
De desesperaçaõ, de fome, de ira?
Grandemente por certo estaõ provados,
Pois que nenhum trabalho grande os tira
Daquella Portugueza alta excellencia
De lealdade firme, e obediencia.
Com termos de grande elogio particularizaõ tudo Authores de grave authoridade.[385] E posto que a 13 de Janeiro de 1759 vimos no Caes de Belem desta Cidade lastimosamente punidos por traidores, perfidos, e parricidas huns miseraveis, que se denominavaõ Portuguezes, foy bem acordado à suprema Junta da Inconfidencia, antes de sentenciar o insulto, desnaturalizar aos aggressores; para que em nenhum tempo servisse de ludibrio a huma Naçaõ taõ fiel ao seu Rey, hum exemplo taõ indigno, e execrando. A mesma fé, e palavra estipulada na correspondencia de qualquer negocio, ou com o estrangeiro, ou nacional, se observa sempre inviolavel.[386]
7 O heroico titulo de Conquistador he huma das excellencias felicissimas, que particularmente compete tambem ao genio Portuguez. Desde o feliz reinado delRey D. Joaõ I. pelos annos de 1415 meteraõ os Portuguezes o braço, e asseguraraõ o pé nas quatro partes do mundo com inveja gloriosa de todo elle; e se as generosas ousadias conseguem o brazaõ de grandes já desde o seu primeiro intento, muitos annos antes da sua execuçaõ residia no sublime peito, e mente Regia de nossos antigos Principes o mesmo glorioso projecto.[387] Por este meyo se vio a Monarquia Portugueza augmentada sem diminuir os Reinos alheyos; fez-se grande sem fazer nenhum pequeno; e com grandeza verdadeiramente propria até o tempo delRey D. Joaõ III. numerou trinta e dous Reinos remotos tributarios, e quatrocentas e trinta e tres Praças presidiadas, com outras muitas Ilhas consideraveis,[388] naõ havendo no mundo clima, em que as sagradas Quinas Portuguezas naõ se exaltassem triunfantes.[389]
8 Mas sobre todas as prendas, nenhuma acredita melhor de estimavel o genio Portuguez, que o zelo, e fervor, com que abraçaraõ, dilataraõ, e conservaõ a Fé de Christo. Elles foraõ os primeiros, que na Europa erigiraõ Templos sagrados para o culto da verdadeira Religiaõ: elles foraõ os que debellaraõ, e expulsaraõ de suas Provincias aos Sarracenos muitos centos de annos antes que outro algum Reino de Hespanha podesse livrarse de taõ vil gente: elles foraõ os que depois de limpar as suas terras da infecta naçaõ Arabe, continuaraõ em perseguilla na Asia, e Africa, naõ com outro motivo, senaõ para lhes intimar, e propagar a Fé Catholica. Aos Portuguezes devem todos aquelles dilatados povos do Oriente o conhecimento da verdade Evangelica, a obediencia aos Summos Pontifices da Igreja, e a salvaçaõ das suas almas:[390] elles saõ finalmente os que para gastar no culto Divino tem mais ambiçaõ do que o mundo todo cubiça para adquirir ouro, e riquezas. Todo este zelo, e piedade he ponto, que para caber no breve espaço deste nosso Mappa, he preciso resumillo, e assinallallo com caracteres miudos.
9 Nas Sciencias supposto que antigamente floreceraõ nellas alguns Portuguezes, de que faz mençaõ Antonio de Sousa de Macedo,[391] com tudo naõ era com aquella fertilidade, com que pelos seculos mais chegados aos nossos deraõ os Portuguezes a conhecer a extensa capacidade do seu talento, e engenho. A confusaõ, e estrondo das armas, e das guerras naquelles primeiros tempos taõ continuas, e o acommettimento de inimigos taõ differentes naõ permittiaõ a tranquilidade, e socego, que requerem as Musas. Havia mais Portuguezes valerosos, que letrados. Produzia Portugal Scipiões, Cesares, Alexandres, e Augustos no valor, mas destituidos do adorno das sciencias, como lamentou Camões,[392] e Francisco de Sá de Miranda:[393]
Dizem dos nossos passados
Que os mais naõ sabiaõ ler,
Eraõ bons, eraõ ousados,
Eu naõ gabo o naõ saber.
10 Até o tempo delRey D. Diniz, sexto Rey deste Reino, ainda naõ se conhecia nelle que cousa eraõ gráos de Doutores, nem de Bachareis, nem de Mestres: aos que sabiaõ alguma cousa chamavaõ-lhe Escolares, porque hiaõ estudar fóra do Reino. De sorte, que o primeiro Rey, que instituio Escolas publicas para se aprenderem as sciencias, foy ElRey D. Diniz, o qual fundou tambem a insigne Universidade de Coimbra, donde continuamente se estaõ produzindo Mestres eruditissimos, e formando infinitos homens prodigiosos em todo o genero scientifico. Tudo cantou Camões na. 97. do 3.
Fez primeiro em Coimbra exercitarse
O valeroso officio de Minerva,
E de Helicona as Musas fez passarse
A pizar do Mondego a fertil herva.
Quanto póde de Athenas desejarse,
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva:
Aqui as capellas dá tecidas de ouro,
De Baccaro, e do sempre verde louro.