11 Esta habilidade intellectual confirmaremos com provas mais evidentes, quando mostrarmos o genio, e engenho dos Portuguezes em toda a faculdade literaria. Passemos a expressar outros predicados. Na producçaõ de alguns inventos saõ elles naõ só fecundos, mas utilissimos. Henrique Garcez foy o primeiro, que achou na America o uso do azougue para purificar o ouro. Portuguezes foraõ os que usaraõ primeiro que outrem comer sentados em cadeiras. Bartholomeu Dias descubrio o Cabo da Boa Esperança; e Fernando de Magalhães o Estreito, a que deu nome. Os famosos Mestres Rodrigo, e Joseph, Medicos delRey D. Joaõ II. inventaraõ o Astrolabio, instrumento Mathematico, o qual abrio caminho a taõ estupendas navegações. O Infante D. Henrique inventou a carta de marear; e em outros muitos raros inventos tiveraõ nossos nacionaes a primazia, e industria, que largamente mostra Manoel de Faria.[394]
12 Saõ os Portuguezes commummente pouco inclinados a aprender linguas estranhas, com a sua se contentaõ, que muito prezaõ. Para as que mais se dedicaõ alguns, saõ a Latina, Castelhana, Italiana, e Franceza, e nas duas primeiras fallaõ, e compõem com energia, e elegancia. Parece que nos reinados gloriosos delRey D. Manoel, e D. Joaõ III. havia mayor curiosidade em se applicarem os nossos às linguas Orientaes pela precisa interpretaçaõ conducente a facilitar o commercio daquelles povos, em cujos idiomas foraõ insignes, além de outros, Pedro da Covilhã, e Fernaõ Martins, dos quaes se lembraõ Joaõ de Barros, e Camões.[395]
13 O primor, brio, e bizarria saõ attributos muy proprios da gente Portuguesa. Naõ emprendem cousa alguma, por difficultosa que seja, que gloriosamente naõ a consigaõ. Affectaõ muito nas occasiões publicas ostentarse pomposos com gravidade, mayormente os Nobres, e quando estaõ fóra do Reino. Daqui nasce serem os Fidalgos Portuguezes reputados por vãos, presumidos, e soberbos; donde o Criticon de Gracian[396] disse: Que serian famosos, si non fuessen fumosos; porém naõ póde deixar de haver muito fumo, onde ha muito fogo: e como bem observou o eruditissimo Feijó,[397] toda esta jactancia da Fidalguia Portugueza naõ he mais que hum chiste, garbo, e dasafogo da vivacidade do seu espirito. A urbanidade, cortezania, e attençaõ, com que trataõ a todos, he incompativel com a soberba, e orgulhosa arrogancia, e inchaçaõ, que se lhes attribue. Saõ muito amigos de valer a quem busca o seu patrocinio; e nas acções de piedade excedem a todo o mundo, dispendendo com maõ generosa, e liberal. Para mi tengo colegido que los Nobles de Portugal, es gente cuerda en lo que hacen, y agudos en lo que dizen: disse D. Antonio de Guevara em huma das suas Cartas.
14 Com desconfianca nos reputaõ os estrangeiros[398] por naçaõ extremosamente aferrada às maximas, e costumes nacionaes, que só estimamos, e encarecemos por vantajosos. Póde ser que se assim fora em todos esta constancia, naõ nos levariaõ elles muita parte da honestidade, verdade, compostura, modestia, honra, e desinteresse, que nossos antepassados professaraõ, e que em lugar destas boas prendas nos não vissemos agora cheyos de cautella, ambiçaõ, ociosidade, soltura, brindes, banquetes, e outras desordens, que as Nações estrangeiras nos introduziraõ;[399] porém este conceito naõ se compadece com o que ordinariamente estamos vendo, que he o nimio apreço, que quasi todos fazem das acções, modas, e costumes estrangeiros, desamparando com aleivosia aquelles, em que foraõ criados, sem mais razaõ que por serem os outros estranhos. Este vicio nacional foy reprehendido por hum dos nossos Poetas antigos,[400] dizendo:
Se hum estranho à terra vem,
Dizeis todos em geral:
Nunca aqui chegou ninguem;
E do vosso natural
Nada vos parece bem.
Em fim que por natureza,
E constelaçaõ do clima,
Esta naçaõ Portugueza
O nada estrangeiro estima,
O muito dos seuss despreza.
Imitou-lhe o conceito, e a sentença com igual graça o grande Francisco Rodrigues Lobo no fim da Egloga 1.
Ouvir qualquer estrangeiro
Fallar de seus naturaes,
Dá delles taõ bons sinaes,
Que o naõ tem por verdadeiro.
Falem-vos n’um natural,
Dizeis faltas que naõ tem;
Mente o outro para bem,
Nós mentimos para mal.
15 Quanto ao traje, e modo de vestir, naõ se póde dizer que o temos proprio: as invenções dos estrangeiros saõ os modélos, ou moldes dos nossos habitos. Até o tempo delRey D. Joaõ III. pouca alteraçaõ, e mudança houve no modo de trajar. Naquelle feliz seculo delRey D. Manoel, em que o Reino nadava em ouro, trajavaõ os Principes vestidos, que hoje desprezariaõ os filhos de qualquer mecanico humilde. ElRey D. Joaõ III. sendo ainda moço, e vendo em differentes occasiões variar de traje, nunca deixou o Portuguez, dizendo, que nenhuma cousa havia de ser bastante a fazello parecer estranho em sua patria.[401] Neste mesmo reinado, e pelos annos de 1530 he que em Portugal começaraõ a entrar as galas de Castella, e as delicias Asiaticas, que nos corromperaõ a modestia, e parsimonia antiga, de que tanto se lamentou Sá de Miranda.[402] Concorreo depois a communicaçaõ das gentes de outros paizes, que com suas extravagantes invenções nos tem feito servos dos seus caprichos, e por imitar o alheyo perdemos o proprio. Bem o disse, e deplorou Simaõ Machado.[403]
Vellos-heis, disse, à Franceza,
Depois disso à Castelhana,
Hoje andaõ à Bolonheza,
Á manhã à Sevilhana,
E já nunca à Portugueza.