Confirma-o Francisco Rodrigues Lobo na Egloga 4.
Por isso qualquer profano
Nos toma para entremez,
Porque fazemos cada anno
Té no traje Portuguez
Mais mudanças que hum cigano.
Naõ tomamos isto em grosso,
Vestimos por tantos modos
Cada hora, que dizer posso,
Que naõ temos traje nosso,
Porque o tomamos de todos.
16 O que tem mais permanecido, he na gente Civil a capa, e volta, e na plebe o uso do capote, de que os estrangeiros naõ gostaõ, porque dizem ser contrario à boa politica, por causa de servir de grande rebuço às pessoas mal intencionadas;[404] porém a boa commodidade, que este habito faz no Inverno, e ainda às vezes no tempo calido, póde justificar o seu uso, e dissimular a indifferença da má intençaõ, que se lhe attribue. As espadas antigamente se traziaõ debaixo do braço sem a prizaõ do boldrié: os Italianos he que inventaraõ, e nos introduziraõ a moda do talim; donde Camões nos seus chamados Disparates veyo a picar esta introducçaõ.
Vereis mancebinhos de arte
Com espada em talabarte,
Naõ ha mais Italiano, etc.
Tambem se costumavaõ adagas, que hoje estaõ prohibidas; e até o adereço das espadas já tem degenerado em espadim, e cotós. As barbas compridas até à cintura se foraõ diminuindo no tempo delRey D. Joaõ IV. em que ainda se usavaõ bigodes: depois no governo do Senhor Rey D. Pedro II. se extinguiraõ, e entrou o uso das cabelleiras já agora taõ domesticado, que se faz reparavel o que naõ usa dellas; e ainda neste genero de compostura ha cada dia differentes novidades.
17 Entre todas as nações do mundo he só a Portugueza naturalmente conhecida por namorada. Perguntou a Madre Soror Maria de la Antiga em certa occasiaõ a Christo, se era Portuguez? O Senhor lhe respondeo: Sim filha, que tudo que diz amor, e mais amor está em mim; e essa parte dos Portuguezes saõ de natural mais nobre; e por certa natureza que naquelle Ceo influem os Planetas, saã commummente alli as gentes dessas qualidades.[405] Derretidos de amor nos chamaõ os Castelhanos; mas este affecto foy, e he sempre exercitado por aquelle teor, e modo, que aperfeiçoa as pessoas, e as incita a acções decorosamente galantes. As venerações, e cultos do amor candido saõ taõ antigos em Portugal, que já em tempo dos Cartaginezes havia templo em Villa Viçosa dedicado a Cupido, a cujo idolo, que era de prata, e chamavaõ Endovelico, hiaõ em romaria os Portuguezes fazer os seus sacrificios, offerecendo no principio de cada mez por victima hum cordeiro branco,[406] para mostrarem o sincero, e racionavel exercicio da mais poderosa paixaõ da alma. Daqui se infere, que na chamma do amor Portuguez naõ ha fumo de torpeza: por isso Valerio Maximo reprehendeo asperamente a Q. Metelo Pio por delinquir nos excessos de Venus dentro da Provincia Lusitana, que só amava os furores de Marte.[407] Assim o deraõ a entender tambem aquelles Cavalleiros da Ordem Militar dos Namorados, que na celebre batalha de Algibarrota obraraõ tantas maravilhas em pura, e honesta contemplaçaõ das suas Damas;[408] e por desafronta de outras passaraõ a Londres no anno de 1390 os doze celebrados Portuguezes, que com gloria, e lustre da patria ficaraõ vencedores.[409] Foraõ finalmente os Palacios dos Reys sempre escolas universaes da fina galantaria. Celebravaõ-se saráos, e festins entre Damas, e galantes nas vodas, nascimentos de Principes, e vindas de Embaixadores, e a este exemplo o faziaõ os particulares com toda a modestia. Hoje está muy sincopada, ou, para melhor dizer, extincta a galantaria;[410] donde o grande Sá de Miranda[411] dizia já no seu tempo:
Traspozeraõ os amores,
E deixaraõ o Paço às cegas.
18 Este amor, e estimaçaõ para com o bello sexo faz ser aos Portuguezes mais ciosos de suas mulheres, do que merece a sua grande honestidade, e por conta dos zelos praticaõ cautelas bem escusadas, de que os estrangeiros naõ costumados a semelhantes precauções bastantemente se admiraõ, e estranhaõ. As mulheres civis raras vezes sahem de casa; e quando chega a occasiaõ, que he no Domingo, ou dia Santo, vaõ acompanhadas de suas criadas, e cubertas com hum manto de seda preta, mas com tal ar, e garbo, que os mesmos estrangeiros reconhecem especial genero de attractivo na sua grave compostura, e meneyo. Antigamente usavaõ de guardinfantes: pouco ha se extinguiraõ os donaires: hoje todo o luxo anda pelos pés, e de rastos; bom final para se acabar. Na formosura, talento, e sagacidade excedem as Portuguezas às mulheres de todo o mundo: parece todavia que com a prenda natural da formosura naõ vivem algumas com toda a satisfaçaõ, obrigando-as a sua mal fundada desconfiança, ou ambiçaõ de parecer melhor, a pôr no rosto alguns unguentos, e certos sinaes, ou retalhinhos redondos de tafetá negro; porque imaginaõ se fazem daquelle modo mais bellas, e que realçaõ muito a alvura da cara, de cujo accidente nem todas participaõ, porque de ordinario as mais delas saõ de cor algum tanto morena, porém o cabello, e olhos pretos com graça, e viveza.
19 Nos casamentos usavaõ as antigas Portuguezas da Provincia do Minho naõ sahirem de casa de seus pays para as de seus esposos, senaõ como violentadas: os seus parentes faziaõ a ceremonia de puxarem por ellas para fóra da porta arrebatadamente, e indo no meyo de dous padrinhos, adiantava-se a toda a comitiva hum moço, que levava a roca cheya de linho, e o fuso. No tempo do Doutor Joaõ de Barros, que floreceo pelos annos de 1549, ainda permanecia quasi este costume; porque a noiva, quando sahia da casa de seus pays, diz elle na Descripçaõ do Minho, chorava muito, dando assim a entender saudosa, que se apartava da sua companhia contra vontade. Tambem costumavaõ, quando sabiaõ que alguma moça estava contratada para casar, juntarem-se as visinhas, e parentas della, e fiarem todas à porfia huma noite até pela manhã, a que chamaõ fazer seraõ; e como ordinariamente todas as mulheres desta Provincia saõ grandes fiandeiras, chegavaõ em semelhante empreza a fiar muitas varas de panno para o enxoval da noiva.[412] Desta sorte ajudaõ huns aos outros para o dote das filhas, e no dia da voda fazem grandes festas, e banquetes.
20 No livro dos costumes antigos de Béja se acha escrito, que os moradores desta povoaçaõ se queixarão a ElRey D. Diniz no anno de 1339, dizendo: que os Fidalgos, e poderosos, quando casavaõ seus filhos, e parentes, rogavaõ ao Alcaide mór, Alvazis, (isto he, Vereador) Fidalgos, e homens bons da terra, com os Alcaides das Aldeas, e que com toda esta companhia hiaõ pelos montes pedir carneiros, gallinhas, e outras cousas, que lhe naõ podiaõ negar em abundancia com vergonha do acompanhamento que levavaõ. Este excesso remediou ElRey, mandando que dalli por diante naõ houvesse acompanhamentos semelhantes, permittindo que só o noivo com hum companheiro fosse recolher a voluntaria offerta de seus paizanos. Assim o refere Fr. Francisco Brandaõ na Monarquia Lusitana liv. 18. cap. 30. accrescentando: que este costume que agora pareceria incivil, e pouco decente para os noivos, que sempre haõ de ostentar grandezas, e naõ indigencia, conforme o costume moderno cheyo de fausto, e ostentaçaõ, julgava a singeleza advertida daquella boa idade por decorosa correspondencia dos novos casados, gratificando nesta parte do estado da Republica, que pelo Matrimonio se amplia.