[492] Bohem. lib. 3. cap. 25. de Vetustis Lusitanorum moribus. Ægrotos vetusto ritu Ægyptiorum in plateis deponunt, ut qui eo morbi genere tentati sunt, commone facere eos valeat.

[493] Garm. no Theatr. Univ. de España tom. 1. p. 195.

[494] Justin. liv. 44. cap. ult. Marian. tom. 1. liv. 1. cap 14. Monarq. Lusit. liv. 1. cap. 23.

[495] Vasæus tom. 1. Chron. ann. 1250. Circa hunc annum ponunt admirabilem illam siccitatem... quod mihi quidem non sit verissimile, quia nulla ejus rei memoria in veterum libris reperitur, qui rem tam stupendam, ac raram proculdubio non tacuissent.

[496] Diodot. Sicul. liv. 1. Arist. de mirab. auscult. Monarq. Lusit. liv. 1. cap. 26.

CAPITULO II.
Estado da Lusitania com a invasaõ dos Fenices, e Cartaginezes.

1 Tanto que a armada Fenicia surgio no porto de Tavira, saltaraõ logo em terra os novos estrangeiros, e introduzindo-se por ella dentro, chegaraõ a invadir, e assolar Andaluzia, onde obrigaraõ os povos a que lhe trabalhassem na extracçaõ dos preciosos metaes, usando com elles inesperadas desattenções. Os Andaluzes achando-se por este modo turbados, e opprimidos, pediraõ soccorro aos Portuguezes Turdetanos seus visinhos. Declarou-se a guerra, fizeraõ-se promptos os batalhões, e logo neste primeiro combate principiou a brilhar o esforço Lusitano com a vitoria, que alcançou do Africano poder; porém o demasiado descuido dos Andaluzes fez eclipsar algum tanto a fama dos alliados; porque deixando respirar quasi à porta as forças do inimigo, pode este conquistar a Betica, paiz fertil, rico, e agradavel.

2 Por este tempo, que foy pouco mais, ou menos 589 annos antes de Christo, querem alguns Chronistas[497] que Nabucodonosor viesse, ou mandasse em alguns navios fornecidos de gente valerosa acometter os Tyrios, e Fenices, que occupavaõ a garganta do Oceano no estreito de Gibraltar, e que estes valendo-se do esforço dos Turdetanos, quebrantaraõ os projectos do soberbo Rey; porém esta expediçaõ he tida por duvidosa no exame da critica mais exacta.[498] O certo he, que humas esquadras de gente estrangeira vieraõ inquietar os Fenices: que os Turdetanos tomaraõ armas para os defender: que os Fenices em recompensa deste soccorro atacaraõ a seus bemfeitores: e que estes castigaraõ aquella vil ingratidaõ, expulsando-os naõ só da Betica, mas da Ilha de Cadiz.

3 Vendo-se os Fenices expulsos, e destroçados, foy o seu remanente buscar soccorro, e refugio a Sidonia, Cidade capital da Fenicia, e lá formando sufficientes reclutas, conduzio hum importante corpo de exercito, que commandava Mezerbal venturoso, e perito soldado. Começou a litigar com os Turdetanos, os quaes animados com o agigantado valor, e sciencia militar do inclyto Baucio Capeto, a quem Mariana chama Principe,[499] fizeraõ tal destroço no inimigo, que o proprio Mezerbal para salvar a vida lhe foy preciso desamparar o campo, e junto ao rio Gaudalete[500] deixou nas mãos de Baucio a segurança da vitoria com os preciosos despojos, que depois se expozeraõ como trofeos honorificos pendurados nas paredes dos Templos.

4 Dissimulou Mezerbal o estrago, ou a pena dos seus effeitos, e para mayor disfarce fez treguas com os Turdetanos. Pendentes ellas, e à sombra da paz mandou pedir a Cartago novos subsidios, com os quaes mais animoso, rompendo a suspensaõ das armas, atacou os Turdetanos, e os expedio da Betica. Retira-se Baucio à Lusitania, e os Turdetanos naõ querendo exporse a outra ruina, determinaraõ deixar a patria. Passaraõ o Guadiana, e o Tejo, padecendo nesta marcha muitos embaraços, porque os Gallegos pertenderaõ impedirlhes o passo misturados com Gregos, e Celtas; porém brilhando nesta resistencia o espirito varonil das matronas Portuguezas, triunfaraõ os Turdetanos de seus inimigos, e a vitoria ficou famosa com o titulo honroso de Empreza das mulheres, produzindo-se por meyo della a tranquillidade na Provincia do Minho.[501]