5 Em quanto estas acções se obravaõ na Lusitania, foraõ os Fenices sacudidos da Betica pelos Cartaginezes; e reforçados estes com as tropas auxiliares, que lhe vinhaõ de Cartago, se foraõ fazendo poderosissimos na conducta de Amilcar, Hasdrubal, Hymilcon, Hanon, e outros valerosos Capitães, principalmente Anibal, os quaes, estabelecendo pazes com os Lusitanos, experimentaraõ quanto era melhor a amizade com elles, que a desavença. Em muitas facções de perigo se valiaõ do valor dos nossos, e os nossos conservando sua alliança alcançaraõ vitorias dos Tyrios, e outros povos de Chipre, que vinhaõ com o designio de invadir a Lusitania com hostilidades, e insultos.
6 Passaremos agora em silencio os successos de alguns annos, porque a narraçaõ abbreviada, que expendemos, mais permitte à penna voos, que rasgos. Já os Romanos invejosos da fortuna, que dava conhecida vantagem ao poder dos Cartaginezes, tinhaõ publicado guerra contra elles; e provando alternativamente as armas em varios recontros, chegaraõ a ver mayor que a de Cartago a força Romana. Porém Anibal ainda assim com huma ousadia incomparavel, querendo resarcir tanto de reputaçaõ, quanto havia perdido de gente, partindo de Hespanha se introduz no coraçaõ de Italia à custa de immensos riscos a combater com os Romanos.
7 Constavaõ suas tropas, além de Africanos, de hum grande numero de Lusitana soldadesca, Vetones, Turdulos, e Celtas, da qual era Commandante Viriato I. A qualidade do exercito augmentou a intrepidez do coraçaõ de Anibal, e em todas as operações de brio, e honra nomeava os Lusitanos, que sempre valentes lhe corresponderaõ à idéa, e desempenharaõ o conceito; e assim foraõ elles os que contribuiraõ para o mayor numero das suas vitorias.[502] Elles foraõ os que em credito da robustez, e constancia de animo supportaraõ com admiravel paciencia a fome, a sede, e todas as fadigas de Marte; bastando a impraticavel passagem dos Alpes, em que até a mesma natureza venceraõ, como emula, para evidente demonstraçaõ do seu esforço.
8 Escolhida pois Italia para theatro da guerra, principiou Anibal a assombrar os Romanos; e sendo muitas, e repetidas as batalhas, em que os nossos occupavaõ sempre as testas dos exercitos, como lugares mais arriscados, vencendo os Consules Cneyo Servilio, Cayo Flaminio, Lucio Emilio, e Cayo Terencio, nenhuma grangeou para a fama nome de mayor permanencia, que a chamada batalha de Canas; na qual depois do primeiro Viriato ter morto seis mil Romanos, lhe tirou a vida o Consul Paulo Emilio, cuja perda resarciraõ os nossos incitados da indignaçaõ, e vingança, chegando a escalar cincoenta mil soldados inimigos em recompensa de hum só Viriato.[503]
9 Sem duvida esta batalha de Canas (assim chamada pelo sitio, em que se deu) teria sido o ultimo rayo de Roma, se Anibal soubesse aproveitarse da vitoria; porém este insigne Capitaõ em vez de marchar no seguimento da sua felicidade para acabar de prostrar as forças Romanas já tibias, se retira a Capua, onde com desgraçado ocio fez adormecer o heroico alento com os mimos daquella Cidade.[504]
10 Com este enorme descuido de Anibal cobraraõ os Romanos novas esperanças de salvarem a patria mais animosos, quanto mais desfalecidos. Renovaõ os Consules suas tropas, Scipiaõ triunfa dos Cartaginezes, e reduz a seu dominio toda Cartago. Empenhaõ os dous valerosos Capitães em argumento de armas as ultimas forças, e vendo Anibal titubear o conflicto da sua parte, houve por bem eximirse do risco, pondo azas nos pés; e depois tirando-se a si proprio a vida, por naõ cahir nas redes da contraria traiçaõ, Scipiaõ mereceo à fortuna alcançar huma taõ importante vitoria, que os Lusitanos partidarios de Anibal lhe venderaõ bem cara; e destruindo por huma vez as armas Africanas, que mais de trezentos annos subjugaraõ Hespanha, constituio senhora dominante da nossa Peninsula a famosa Roma.
NOTAS DE RODAPÉ:
[497] Strab. liv. 15. Monarq. Lusitan. liv. 1. cap. 28. Yañes España en la S. Biblia part. 1. cap. 15. n. 3. e outros muitos.
[498] Estaço nas Antig. de Port. cap 33. n. 4. Paiv. Exame de antiguid. p. 120. Bochart. na Geograf. Sacr. liv. 1. cap. 34.
[499] Marian. tom. 1. liv. 1 cap. 18.