[500] Flor. do Camp. lib. 2. cap. 29.

[501] Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 4. Far. Europ. Port. tom. 1. part. 1. cap. 9. num. 9.

[502] Liv. decad. 3. lib. 7.

[503] Sil. Ital. lib. 10. Resend. lib. 3. de Antiquit.

CAPITULO III.
Conducta dos Portuguezes no governo dos Romanos.

1 Assim continuava a soberania Romana em dominar Hespanha, que sendo até o anno 534 da fundaçaõ de Roma huma só Provincia Consular, pelos annos porém de 557 da mesma fundaçaõ, e 196 antes de Christo, foy dividida em duas Provincias Pretorias, ou Proconsulares, chamadas Ulterior, e Citerior. Naquella se comprehendia a Betica, e a Lusitania, isto he, Andaluzia, e Portugal: na Citerior todas as mais partes de Hespanha.[505]

2 Para exacto governo dellas eraõ enviados de Roma varios Pretores, ou Governadores fortalecidos com legiões de gente militar para presidio das terras, que hiaõ conquistando; porém como os Lusitanos mal soffriaõ o jugo Romano, foy preciso ao respeito dos Senadores para nos sujeitar à obediencia mandar tambem o Consul Cataõ Censorino, o qual usando de affabilidade, dominou os corações da nossa gente até o ultimo dia do seu governo, pois tanto que Scipiaõ Nasica lhe succedeo, logo se revoltaraõ como leões indomitos contra elle.

3 Inconstante fortuna experimentou Nasica no principio da sua Pretura; porém no fim a logrou taõ favoravel à custa dos nossos, que a sorte, mais que o esforço, o fez vencedor de cento e trinta e quatro bandeiras.[506] Mas naõ perdendo os Lusitanos já mais o acordo na desgraça presente, e appellando para o primeiro conflicto, souberaõ vingar a perda passada com destruiçaõ total do exercito Romano, que governava Lucio Emilio,[507] ruina, que por muitos dias continuos foy deplorada dentro em Roma, e até a vingança, que depois meditaraõ, foy mal succedida.

4 Continuavaõ os Pretores, e Consules o governo da Hespanha, os quaes ou abatidos, ou vitoriosos, sempre confessavaõ por formidaveis as armas Lusitanas, custando-lhe cada palmo de nosso terreno adquirido rios de sangue Romano. Entre os nossos Capitães, que deixaraõ resplandecente nome na veneravel duraçaõ da memoria, foraõ Apimano, Cesaron, Chancheno, Viriato, e Sertorio, cujas gloriosas proezas occupaõ até as Historias dos que pertenderaõ diminuirlhe a fama.

5 Aquelle espantoso terror, que o brio dos Lusitanos tinha semeada em Roma, chegou a produzir tal impressaõ nos animos de todos, que não havia nem Tribuno, nem Pretor, que se quizesse encarregar da guerra de Hespanha; e por acudirem pelo credito da Naçaõ, buscaraõ o caminho do ludibrio, que foy o da aleivosia, naõ sem escandalo do mundo. Assim se experimentou na morte de Viriato II. pela perfidia de Quinto Servilio, e na de Sertorio pela de Marco Perpenna.[508]