Catalogo chronologico dos Reys Godos, que governaraõ Hespanha, e Portugal.

Ann. de Chr.
411Ataulfo. Foy o primeiro Rey Godo, que teve dominio em Hespanha. Suceedeo a Alarico: casou com Gala Placidia, irmã do Imperador Honorio, aquem este deu em dote as terras de Hespanha com o designio de expellir dellas aos Vandalos, e as outras nações Septentrionaes; porém Ataulfo, portando-se com brandura no governo, foy desobedecido pelos seus, e por elles morto em companhia de sete filhos. Dizem huns que governara cinco annos, outros seis.
416Sigirico. Era valeroso Capitaõ, e por isso elegeraõ para Rey. Quiz levar as cousas pelos termos de paz; e naõ se contentando os Godos com o seu modo, tambem lhe tiraraõ a vida. Governou hum anno.
416Walia. Começou a governar com o projecto de conquistar Africa: perdeo huma grande armada: retira-se a Barcelona, faz pazes com Honorio, e depois guerra aos Vandalos, e os vence. Morre em Tolosa, tendo governado tres annos.
419Theodoredo, ou Theodorico. Fez guerra aos Romanos, e morreo na cruelissima batalha dos campos Catalaunicos, cahindo de hum cavallo. Governou trinta e tres annos.
452Thurismundo, filho de Theodoredo. Foy morto por industria de seus irmãos. Governou hum anno.
453Theuderico, irmaõ de Thurismundo. Venceo, e matou a Reciario, Rey dos Suevos, e em Braga fez grandes hostilidades. Foy morto por seu irmaõ Eurico. Governou treze annos.
466Eurico. Deu leys escritas aos Godos, expulsou aos Romanos de Hespanha, conquistou, e saqueou muitas terras de Portugal. Neste tempo se achava Hespanha dividida em tres Imperios: os Suevos tinhaõ a Galiza, parte da Lusitania: a Betica, e Catalunha era dos Godos: os Romanos eraõ senhores das Provincias de Cartagena, e Carpentana com o restante da Lusitania. Depois de algumas vitorias morreo em Arlés de França, e governou dezasete annos.
483Alarico II. filho de Eurico. Litigou com Clodoveo, Rey de França, e em huma batalha junto a Carcasona perdeo com ella a vida. Governou vinte e tres annos.
506Gesalico, ou Gesaleuco ou Gensalarico, filho illegitimo de Alarico. Foy acclamado pelos Godos na menoridade de Amalarico. Perdeo o que seus antecessores possuiaõ em França; e sendo vencido por Theodorico, Rey dos Ostrogodos de Italia, avô do herdeiro legitimo, morreo de melancolia. Governou quatro annos.
511Theudorico II. Tendo reinado dezoito annos em Italia occupou o Cetro de Hespanha. Dizem huns que como Rey verdadeiro, outros só como tutor, ou administrador de seu neto. Governou quinze annos.
526Amalarico, filho de Alarico. Teve por mulher a Crotilde, Princeza Catholica, filha de Clodoveo, Rey de França; mas como o marido era Arriano, padeceo com elle grandes trabalhos, até que os irmãos a vingaraõ, matando-o, e destruindo muitas povoações de Hespanha. Governou cinco annos.
531Theudo, ou Theudio, ou Teudis. Tinha sido tutor de Amalarico, e Governador de Hespanha: outros o fazem descendente delRey Theodorico de Italia. Acabou, e extinguio o governo dos Romanos em Hespanha quanto aos Magistrados. Foy morto em seu Palacio por hum homem, que se fingia bobo. Governou dezasete annos.
548Theudiselo, ou Theudisclo. Foy Arriano, e hum dos máos Reys dos Godos. Os seus o mataraõ em Sevilha, estando em hum banquete. Governou hum anno.
549Agila. Por eleiçaõ dos Grandes foy eleito Rey. Os Cordovezes o venceraõ. Muitos dos seus se rebelaraõ contra elle, e o mataraõ em Merida. Governou cinco annos.
554Athanagildo. De Capitaõ, que se havia rebelado, ficou com o Reino dos Godos. Morreo em Toledo, e governou quatorze annos.
567Liuva, ou Luiva. Depois de reinar hum anno cedeo o senhorio de Hespanha a seu irmaõ Leovigildo, e elle se retira às terras, que tinha em França. Governou hum anno.
568Leovigildo. Alcançou muitas vitorias dos Suevos de Galiza, recopilou as leys Goticas, foy o primeiro, que usou de insignias Reaes, throno, cetro, e coroa. Teve grandes guerras com seu filho Hermenegildo, a quem perseguio, e fez martyrizar em Sevilha depois de huma apertada prizaõ. Governou dezoito annos.
586Flavio Recaredo, filho de Leovigildo, e sobrinho de S. Leandro, e S. Fulgencio. Desterrou a heresia de Arrio das terras de Hespanha, e governou quinze annos.
601Liuva II. filho de Recaredo, que alguns querem que fosse bastardo. Foy pio, e Catholico. Witerico lhe usurpou o Reino, tirando-lhe com tyrannia a vida. Governou dous annos.
603Witerico. Renovou em seu governo a perfidia de Arrio, e por isso o mataraõ, e arrastaraõ pelas ruas publicas de Toledo, dando-lhe immunda sepultura. Governou seis annos.
610Gundemaro. Foy defensor da immunidade Ecclesiastica, e venceo aos Navarros. Governou dous annos.
612Sisebuto. No principio do seu reinado constrangeo aos Judeos a que seguissem a Ley de Christo, por cujo motivo fugiraõ muitos para França. Acabou de lançar fóra de Portugal aos Romanos, que ainda se conservavaõ neste tempo por toda a costa do Algarve, e entre os Cabos de S. Vicente, e de Espichel. Fortaleceo a Cidade de Evora, e fundou em Toledo a Igreja de Santa Leocadia. Governou oito annos e meyo.
621Flavio Suyntila, filho de Recaredo. Destruio os Imperiaes, e sujeitou ao dominio Gotico todo Portugal. Entregou-se aos vicios, e crueldades de fórma, que o Concilio Toledano IV. em que se achou Santo Isidoro, o excommungou, e a sua mulher, e filhos. Os Vice-Godos o privaraõ do Reino. Governou dez annos.
631Sisenando. Foy sublimado ao throno por favor de Dagoberto, Rey de França, a quem deu dez pezos de ouro taõ grandes, que bastaraõ para acabar o grande Templo de S. Diniz. Governou quatro annos.
636Chintila. Por votos uniformes da Nobreza foy eleito Rey; e querendo perpetuar no estado Regio sua descendencia, convocou alguns Concilios para estabelecer o seu intento. Governou tres annos.
640Tulga. Viveo pouco, porém fez obras de grande piedade, e zelo christaõ. Morreo em Toledo com grande sentimento, e saudade de todos. Governou dous annos.
642Chindasuindo. Entrou a governar por violencia, continuou com justiça de forte, que soube temperar o arduo do principio com o suave do progresso. Convocou em Toledo Concilio, fundou o Mosteiro de S. Romaõ entre Toro, e Torresilhas, onde está enterrado. Governou seis annos.
649Recesuindo, filho do antecedente. Entrou a governar sem contradiçaõ, e com justiça. Governou vinte e tres annos.
672Wamba, ou Bamba. Foy eleito, e ungido Rey milagrosamente. Ganhou muitas batalhas contra aquelles povos, que se queriaõ eximir do jugo Gotico: até dos Sarracenos triunfou. Hum accidente lhe fez mudar huma coroa por outra: repudiou o Reino, e deixando a purpura pelo habito de Religioso, acabou santamente. Governou sete annos.
680Ervigio. Obteve o Cetro por industrias, que maquinou em vida de Bamba. Governou sete annos.
687Egica, ou Egiza, genro de Ervigio. Tomou por companheiro a seu filho Witiza, e obrigou aos Nobres a que lhe jurassem fidelidade. Divide o governo entre si, e o filho, dando a este o dominio de Portugal, e Galiza, e elle ficando com o restante da Hespanha. Governou dez annos.
701Witiza. Tanto que subio ao Throno, fez estabelecer sua Corte em Braga, e dando-se a todo o genero de vicios, chegou ao extremo da maldade, e tyrannia, mandando tirar os olhos a seu irmaõ Theodofredo, que residia pacifico no governo de Cordova. Concedeo varios privilegios aos Judeos, e depois de outras muitas perversidades, que o fizeraõ aborrecivel de todos, morreo em Toledo. Governou dez annos.
711D. Rodrigo, filho de Theodofredo, e neto de Chindasuindo. Pouco se distinguio nos vicios ao antecessor. Os amores, que teve com Florinda, filha do Conde Juliaõ, foraõ causa da sua ruina e de toda Hespanha, introduzindo-se por conducta do Conde offendido no desprezo de sua filha hum grande corpo de exercito Arabe, que derrotou a D. Rodrigo, e todo o poder dos Godos, que havia durado na Hespanha mais de trezentos e oitenta annos.[540]

NOTAS DE RODAPÉ:

[520] Paul. Diac. lib. 13. Turselin. Epitom. Historic. lib. 5. pag. 113.

[521] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2.

[522] Oros. Cassiodor. e outros apud Gandar. nas Palm. e triunf. Eccles. de Galiz. part. 2. l. 6. cap. 10. e 11. Saavedra Coron. Gotic. tom. 1. p. 32. Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2. e 3.

[523] Clede, Histoire de Portug. tom. 1. liv. 3. pag. mihi 224.

[524] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 4.

[525] Morales lib. 11. cap. 33.

[526] Vasæus Chron. tom. 1. p. 39.