14 Subordinada já nossa Peninsula ao total poder Gotico, foraõ continuando em seu governo os seus Monarcas, pondo em algumas terras Governadores com titulo de Condes, que residiaõ a arbitrio dos Reys Godos.[527] Passados annos, chegou a Monarquia a perigar na falta de successor; mas por conselho do Romano Pontifice, que para isso teve revelaçaõ divina,[528] foy escolhido Vamba, natural, e habitador de Idanha, onde o foraõ achar bem alheyo de outro governo, que naõ fosse o dispotico exercicio da sua agricultura.

15 Intimaraõ-lhe os Embaixadores o grave negocio, a que hiaõ, e elle, que teve a embaixada por equivocaçaõ, o cargo por impossivel, respondeo, e protestou, cravando a aguilhada na terra, que só entaõ seria Rey, quando aquella vara brotasse flores. Assim succedeo, pois ella começou logo a florecer, e elle sendo obrigado pela palavra, foy conduzido para Toledo, onde o ungiraõ e respeitaraõ Rey de toda Hespanha[529] na Era de 710.[530]

16 Venceo este Rey varias batalhas, promulgou leys, fez celebrar Concilios, ajustou os limites na jurisdicçaõ das Igrejas, e por hum accidente, em que o reputaraõ por morto, tornando a si, renunciou a Coroa em Ervigio, e tomando o habito de Religioso Benedictino em o Convento de Pampliega, cinco leguas entre Burgos, e Valhadolid,[531] acabou seus dias tranquillamente, deixando de si fama taõ gloriosa, que Arnoldo Ubion o poem no Catalogo dos Santos.

17 Seguio-se Ervigio, que foy jurado Rey com toda a solemnidade, depois Egica seu genro, e a este Witiza seu filho, que collocando sua Corte humas vezes em Braga, outras em Tuy, ou em Toledo, de qualquer parte lançava rayos, como astro maligno, que tudo inficionava. Chamaraõ-lhe o Nero de Hespanha: tal era seu infame procedimento.[532]

18 Com melhor esperança de que extinguisse os escandalos passados acclamaraõ os Godos a ElRey D. Rodrigo; porém depressa viraõ desvanecidos os seus conceitos, porque este Principe tudo obrava por appetite; e o Conde D. Juliaõ, que era seu Capitaõ da guarda, por conservar sua fortuna sempre prospera, executava francamente a arte da lisonja. Vivia no Paço, como era costume, huma filha do tal Conde, chamada Florinda, ou vulgarmente Cava, dama de estremada formosura: affeiçoou-se ElRey della, e para grangear melhor os seus agrados, lhe prometteo na uniaõ do Matrimonio a igualdade da Coroa; porém naõ se passou muito tempo, que repudiasse a Florinda por coroar a Eylata, ou Egilona, formosa Princeza de Africa, a quem a braveza das ondas fizera por hum incidente arribar a Hespanha.[533]

19 Sentio Florinda aquella affronta, ou violencia, e meditando com seu pay algum genero de vingança, e desaggravo proporcionado, elle se passou a Africa, se acaso naõ estava já lá, como querem outros, por ser Governador daquelles dominios posto pelo mesmo D. Rodrigo; e conciliando hum poderoso exercito de Sarracenos, vieraõ accommetter Hespanha pelas instrucções do Conde, obrando total estrago na florente Monarquia dos Godos.

20 Esta he a substancia de toda a Historia da perdiçaõ de Hespanha, que corre entre os Authores com mais vulgaridade, supposto que em algumas circunstancias haja entre elles differença. Todavia considerando outros com reflexaõ mais prudente a facilidade, com que os Mouros em dous annos conquistaraõ quasi toda a Hespanha, e a negligencia, com que os Hespanhoes a defenderaõ, naõ succedendo assim com os Fenices, nem Cartaginezes, nem Romanos, nem ainda com os mesmos Godos, pois qualquer destas Nações gastou muitos annos para entabolar o seu dominio; julgaõ que o motivo desta fatalidade se originou por haver naquelle tempo alguma guerra civil na Monarquia Gotica, e esta acharse dividida em parcialidades, das quaes a menos poderosa se foy valer dos Arabes, e que estes em lugar de soccorrer a outrem, foraõ conquistando para si, o que alcançaraõ facilmente por causa da mesma divisaõ.[534] E porque os Suevos, e Godos foraõ senhores das nossas terras, he justo que façamos delles total memoria, ainda que seja em resumida chronologia.

Catalogo Cronologico dos Reys Suevos, que reinaraõ em Portugal, e Galiza.

Ann. de Chr.
409Hermerico, ou Hermenerico. Teve guerras com os Alanos. Depois dos Vandalos passarem a Africa ficou senhoreando quasi todo o Reino de Portugal da fórma, que hoje está dividido, e ainda algum pedaço de Galiza. Morreo em Merida de huma doença, que lhe durou sete annos, e governou trinta e dous.
440Rechila, filho do antecedente. Fora Principe perfeito, se naõ seguira o Arrianismo. Com prosperidade, e paz governou sete annos.
448Reciario, filho de Rechila. Teve alguns emulos no principio do seu reinado: casou com a filha de Theodorico, Rey Godo: saqueou, e destruio os Vascões: passou a França a visitar seu sogro, e na retirada conquistou muitas terras de Hespanha. S. Balconio, Bispo de Braga, lhe fez abraçar o Christianismo. Na Cidade do Porto foy degollado por seus inimigos, e nelle se extinguio a linha verdadeira dos Suevos. Governou nove annos.
457Maldra, ou Masdra. Foy eleito na Cidade de Braga pelos Bispos, e alguma Nobreza do Reino; mas padeceo as opposições, que lhe fez Franta, que os do partido contrario introduziraõ no governo, e elle governou tres annos. Seguio-se outro tambem intruso, chamado Frumario, que reinou tyrannicamente dous annos, e a Masdra se seguio
464Remismundo, a quem Santo Isidoro chama Arismundo, filho de Masdra. Ficou prevalecendo o seu reinado entre os dous precedentes Contendores. Foy cativo, e prezo por ElRey Godo Theodorico, o qual introduzio em Galiza a heresia Arriana. Daqui para diante naõ he muy certa a successaõ dos Reys Suevos por se interromper a sua serie com a morte de Remismundo. Fr. Bernardo de Brito[535] dá por incertos a Theodulo, Veremundo, Miro, Pharamiro. Filippe de la Gandara,[536] seguindo o Chronicon de Marco Maximo, assina depois de Remismundo a Hermenerico no anno 556 com o governo de quasi cincoenta annos: a Rechila II. Reciario II. a quem S. Martinho Dumiense converteo à Fé Catholica, e a Ariamiro, ou
560Theodomiro, filho de Reciario. Converteo-se à Fé juntamente com seu pay, e foy grande defensor da Divindade de Christo. Celebrou-se no seu tempo o primeiro Concilio Bracarense. Os annos do seu governo saõ muito incertos. Santo Isidoro, a quem segue o allegado Gandara, diz que reinou vinte e quatro annos, Yañes dez, Coronelli no seu Prodromo seis, o Abbade de Valclara tambem lhe assina dez annos de governo, e parece o mais provavel. O Padre Argote lhe dá o nome de Theodomiro Junior, porque antes delle diz que houvera outro Theodomiro Senior.[537]
570Miro, ou Ariamiro. Foy excellente Principe em piedade, e Religiaõ. Fez convocar em Braga o segundo Concilio para desterrar alguns abusos, e governou treze annos. Aqui ha grande equivocaçaõ em o nome deste Rey, que alguns confundem com Theodomiro, e por isso naõ se ajusta entre os Authores a chronologia como deve ser.[538]
583Eborico, ou Eurico. Succedeo no governo ao antecedente. Foy logo despojado do Reino por Andéca, padrasto de Eburico, o qual para mais o inhabilitar para a successaõ, lhe fez tomar o habito de Religioso no Mosteiro de Dume, e professar. Esta violencia vingou pelos mesmos fios Leovigildo, Rey Godo, obrigando tambem a Andéca a se ordenar de Sacerdote; e desterrando-o para Béja, tomou posse de todas as riquezas do Reino, o qual no poder dos Suevos tinha durado em ambas as fortunas cento e setenta e sete annos.

Advertimos, que o erudito Padre Mestre Fr. Paulo Yañes produz huma serie dos Reys Suevos com diversidade desta, que temos expendido, tanto em os nomes dos Reys, como em o numero, e calculo dos annos.[539] Este Author como o seu intuito foy mostrar, e explicar o cap. 7. de Daniel nestas quatro nações barbaras, que occuparaõ Hespanha, naõ quiz incluir na serie dos Reys aquelles, que foraõ tyrannos, e intrusos, e assim exclue a Frantan, Fumario, e Andéca, numerando sómente oito Reys Suevos legitimos, e verdadeiros.