4 Morto Resplandiano se lhe seguio Atáces, o qual estribando seu atrevimento nas mayores forças por senhorear mayor parte da Lusitania, foy accommetter Hermenerico, Rey dos Suevos, a quem tomou algumas terras, especialmente Coimbra, que entaõ se achava existente no sitio de Condeixa a velha, e principiou a edificar a que agora existe, obrigando ao trafego da obra toda a qualidade de pessoas.
5 Quizera Hermenerico resistir, e castigar os atrevimentos de Atáces; convoca em seu favor a Gunderico, Rey dos Vandalos; fortifica-se no Porto, e fortifica tambem a Cidade. Chegaõ a litigar os dous exercitos, e declinando de huma parte o poder, fica Hermenerico derrotado; tudo porém se compoz logo, offerecendo Hermenerico a ElRey Atáces sua filha Cindasunda para esposa com hum thesouro por dote de riquezas consideraveis.[523] Nesta paz viveraõ socegados sogro, e genro, occupando-se unicamente em fazer algumas correrias contra os que seguiaõ o partido Romano.
6 Tinhaõ-se incorporado os Vandalos, e Suevos para maquinarem rijo accommettimento concra os Alanos, que com a soberba do seu Rey Atáces pertendiaõ usurpar as terras dos seus visinhos. Honorio havia feito pazes com os Godos, e tambem com os Vandalos; e soccorridos estes com taes auxilios, deraõ batalha, pelejarão valerosamente, e venceraõ a Atáces.
7 Recuperaõ outra vez os Alanos, e Selingos as terras perdidas, fundaõ a Villa de Alenquer, e já sem Rey, que os governasse, tornaõ a ser feudatarios ao Imperio Romano. Ajustaõ pazes com os Suevos, e com tal uniaõ se enlaçaraõ, que desde esta confederaçaõ se começaraõ os Portuguezes a chamar Suevos.[524] Passaõ os Vandalos para Africa em numero de oitenta mil, e os Alanos, e Suevos se deixaraõ ficar na Lusitania possuindo aquellas terras, que lhe couberaõ em forte.
8 Numerava já o mundo Christaõ mais de quatrocentos e cincoenta annos, quando Theodorico, Rey Godo, entrando por Hespanha contra Reciario, Rey dos Suevos, depois de o apertar com huma guerra cruenta, o venceo junto a Astorga, dissipando naquelle dia todas as grandezas, e nome Suevo, para fundar nas suas ruinas o Imperio Gotico; e deixando as terras de Portugal já sujeitas à sua obediencia, se retira a França.
9 Os Suevos vendo-se destruidos recorrem ao Rey Godo por meyo dos Bispos, supplicando-lhe a liberdade de acclamarem Rey proprio, e nacional com o reconhecimento de feudatarios. Orou nessa embaixada eloquentemente Idecio, Bispo de Lamego, por cuja efficacia, e persuasaõ lhe outorgou Theodorico com grandeza regia quanto pediaõ. Voltaõ os Prelados para Braga, e elegem a Masdra para seu Rey.
10 Alguns dos nobres mal satisfeitos da eleiçaõ, com o pretexto de naõ se acharem presentes, acclamaraõ em Lugo por seu legitimo Rey a França. Daqui principiarão a nascer muitas discordias, cujos effeitos descarregando em insultos sobre os povos, lhes fizeraõ sentir, e padecer as molestias, e os riscos daquella opposiçaõ.
11 Socegaraõ em fim com a morte de Masdra, e com o tratado de paz, que seu filho Remismundo, successor no governo, fez com o Franta; mas como a este se lhe seguisse Frumario, e persistisse na teima de ser elle o Rey legitimo, fez resuscitar as antigas contendas, que ultimamente feneceraõ com o fim dos seus dias, ficando Remismundo com todo o principado da Lusitania, e dos Suevos.
12 Para mayor segurança do seu dominio mandou Remismundo pedir ao Rey Godo Theodorico lhe quizesse confirmar o tratado das pazes, que seus antecessores tinhaõ feito, expressando-lhe a prompta fidelidade, e reconhecimento, em que vivia. Lisongeado Theodorico desta attençaõ, houve por bem suas conquistas, e lhe deu por esposa huma sua filha, a qual, como era Arriana, introduzio em Portugal esta seita, que inficionou todo o Reino,[525] na qual foraõ permanecendo outros Reys até Theodomiro, que foy quem resuscitou a Fé Catholica, e fez que abjurassem os Suevos os dogmas da perfidia Arriana, em que tinhaõ vivido noventa annos.
13 Reinava na Monarquia Gotica Leovigildo, e estimulado das tyrannias, que Andeco usava com os Suevos, em cujo governo se introduzira, voltando as armas contra elle, o cativou, e se fez senhor de todo o Reino, e dominio Suevo pelos annos 585,[526] principiando daqui para diante o governo, e Imperio dos Godos em Portugal.