30 Persuadido em fim que a vista do Principe concilia o amor dos povos, por se fazer amavel, e estimado, visitava as terras mais populosas do Reino, e ainda as que o naõ eraõ, fazendo a todas naõ só a honra da sua presença, mas as mercês da sua generosidade,[601] sendo primeiramente soccorridos os Lugares sagrados com fabricas, e esmolas, experimentando-o especialmente o sumptuoso Convento de Alcobaça, e outros mais da Ordem de S. Bernardo, de quem foy particular bemfeitor,[602] acabando todos de ver o governo, e a piedade deste Rey nas clausulas do seu testamento, pelo qual deixou grandes sommas de ouro, prata, joyas, e tapeçaria repartido por seus filhos, amigos, pobres, Hospitaes, e Igrejas com taõ boa formalidade, que o Papa Innocencio III. lho confirmou por huma Bulla, que se conserva no Mosteiro de Lorvaõ.[603] Depois de reinar vinte e seis annos, deixou em Coimbra no fim de huma grave doença os alentos vitaes para sempre em 27 de Março do anno de 1211, contando cincoenta e sete de idade. Jaz em Santa Cruz de Coimbra.

D. Affonfo II. terceiro Rey.

31 Suspenderaõ-se as mal enxutas lagrimas, que se haviaõ derramado na morte de D. Sancho, com a festiva acclamaçaõ de seu filho D. Affonso no mesmo dia 27 de Março de 1211, contando vinte e seis annos de idade, e havendo já dez que era casado com a Senhora Dona Urraca, por se ter recebido no anno 1201.[604] Havia nascido em Coimbra a 23 de Abril de 1185, e padecendo na infancia a continuada molestia de hum achaque perigoso, foy livre delle milagrosamente pela virtude de Santa Senhorinha, a quem D. Sancho foy em pessoa supplicar à sua Igreja de Basto a melhoria, gratificando-lhe depois aquelle beneficio com o liberal donativo de muitas terras, e privilegios para ellas.[605]

32 Apenas D. Affonso subio ao throno, expressou logo o seu animo generoso, dando a Villa de Aviz aos Cavalleiros da Ordem militar deste nome, que haviaõ residido em Evora; e como pelos annos 1212 se havia alterada a paz estabelecida entre ElRey D. Affonso IX. de Castella, e Mahomet IV. intentando este a conquista de Hespanha, e empenhando todas as forças, foy tambem preciso a ElRey de Castella valerse, além de outros, do adjutorio delRey de Portugal, que lhe mandou grande numero de soldados, os quaes tiveraõ grande parte no triunfo, que dos Arabes alcançou ElRey de Castella na celebre batalha chamada das Navas, por se appellidar assim sitio, onde se deu, junto à serra Morena a 16 de Junho de 1212.[606]

33 Pouco affavel, e conforme se mostrou D. Affonso com seus irmãos, e assim intentou tirar as Villas, e terras a suas Santas Irmãs, que seu pay lhes havia deixado, de que resultaraõ graves litigios, que em parte fez serenar o Pontifice com censuras, e ElRey de Leaõ com as armas; e temendo igual perseguiçaõ seus irmãos, D. Fernando, desamparando a patria, passou-se para Castella, e D. Pedro para Marrocos.[607]

34 No anno de 1217 haviaõ partido de varios portos do Norte differentes náos para a expediçaõ, e conquista da Terra santa, as quaes chegando a incorporarse na altura do Algarve, compunhaõ huma fortissima armada de trezentas vélas. Quizeraõ voltar o Cabo de S. Vicente, e levantando-se furiosa tormenta, vieraõ demandar o abrigo da barra de Lisboa, de cuja vinda aproveitando-se o Bispo della D. Sueiro, (e naõ D. Mattheus, como nossos Historiadores dizem, sem reflectirem no reparo do insigne Chronista Brandaõ),[608] ajudado com outros Commendadores das Ordens Militares, e das reclutas de gente, que ElRey havia mandado conduzir, foraõ todos expugnar a Villa de Alcaçer do Sal, Praça de armas fortissima, presidiada dos Mouros, e huma das mais importantes, que elles conservavaõ na Hespanha. Naõ obstante a grande resistencia, que faziaõ ao nosso sitio com resoluçaõ, e esforço auxiliado dos Reys de Cordova, Sevilha, Jaen, e Badajoz, ficaraõ finalmente rendidos depois de repetidos assaltos, e porfiada peleja.

35 Parece que o aspecto desta vitoria, que alcançámos, taõ formidavel para os Arabes, os devia intimidar; porém elles mais irritados, renovando numerosos esquadrões, entraõ por Portugal com intentos de ganharem Elvas, a quem ElRey com felicidade promptamente soccorreo, e venceo; e penetrando por Andaluzia vitorioso, poz grande terror aos Mouros. Outras muitas batalhas ganhou nosso Monarca sempre em grande credito das armas christãs, até que completando trinta e oito annos de idade, e doze de reinado, concluio seus dias em Coimbra aos 25 de Março de 1223. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.

D. Sancho II. quarto Rey.

36 Foy Coimbra patria de D. Sancho, onde nasceo a 8 de Setembro de 1202, padecendo logo na sua infancia as disposições de pouca saude. Entrou a governar a 25 de Março de 1223, e mostrou que naõ degenerara do valor de seus predecessores, nem nos desejos de dilatar a Fé, nem de extinguir os Arabes; pois ainda que o mayor numero dos nossos Chronistas o infamaraõ de pouco cuidadoso para o governo, sabemos que no anno de 1225 entrara pelo Alentejo na frente de hum poderoso exercito assolando o poder Ismaelita com tanto valor, que mereceo por esta acçaõ os publicos, e honrosos elogios, que o Papa Honorio III. lhe mandou.[609]

37 Continuou a guerra contra os Mouros sempre vitorioso até o anno de 1242, recobrando delles à força de armas muitas Praças, e Villas do Alentejo, e Algarves, Elvas, Jurumenha, Serpa, Aljesur, Mertola, Cacela, Ayamonte, e Tavira. Fez porém ElRey diminuir estes prosperos successos, consentindo na oppressaõ, que se fazia ao estado Ecclesiastico, de que resultaraõ gravames, queixas, e censuras Pontificias. Outros attribuem estas desordens à demasiada introducçaõ dos validos nas cousas do governo, e nimia frouxidaõ delRey, procedida tambem da sua bondade, como diz o Plataõ Portuguez.[610] Porém vendo o Pontifice que as suas admoestações eraõ inuteis quanto ao vexame do Clero, Innocencio IV. o depoz do throno pelo Decreto, que anda inserto no livro 6. das Decretaes cap. 2. que principia Grandi non immerito,[611] substituindo em seu lugar por Governador a seu irmão D. Affonso, Conde de Bolonha, que entaõ se achava no Reino de França.