38 Chegou o Infante Regente novamente nomeado, e aceito por commum consentimento dos Tres Estados do Reino, e vendo-se D. Sancho infelizmente deposto do governo, se valeo de seu primo ElRey D. Fernando de Castella, o qual formando hum exercito em seu favor, marchou contra Portugal; mas intimando-se aos Generaes Castelhanos as censuras, e Decretos Pontificios contra os que embaraçassem a regencia de D. Affonso,[612] desenganado D. Sancho da sua pertençaõ, se recolheo a Toledo, onde entregue a obras pias, executou acções dignas de eternos elogios; porque naõ satisfeito de ter declarado a sua generosa virtude com a erecçaõ de alguns Templos em Portugal, mandou fazer a Capella dos Reys na Sé de Toledo, onde se mandou enterrar. Acabou finalmente cheyo de desgostos, e merecimentos para alcançar a verdadeira coroa da eternidade feliz em 4 de Janeiro do anno de 1248, tendo quarenta e seis de idade, e vinte e cinco de governo.
D. Affonso III. quinto Rey.
39 Era D. Affonso irmaõ segundo delRey D. Sancho, e havia casado no anno de 1235 em França com Matilde, Condesa proprietaria de Bolonha, sendo chamado para governar Portugal pelos defeitos, que inventaraõ, ou criminaraõ a D. Sancho. Jurou primeiramente em França na presença de certos Prelados Portuguezes, que lá se achavaõ a 6 de Setembro de 1245, alguns artigos pertencentes ao bom governo. No anno seguinte entrou no Reino com intento de conquistar o Algarve, empreza, que no anno de 1250 o conseguio quasi plenamente,[613] e em que se distinguio muito o insigne D. Payo Peres Correa, Mestre da Cavallaria de Santiago.
40 Como as conquistas de Portugal, e todas as mais terras de Hespanha occupadas pelos Mouros eraõ sem limite, e ficavaõ no dominio daquelles Principes Christãos, que primeiro as ganhavaõ, intentou D. Affonso depois de sujeitar o Algarve reduzir tambem a seu dominio algumas terras de Andaluzia, como com effeito subordinou as Villas de Aroche, e Arecena, que ao depois passaraõ para o senhorio de Castella.[614]
41 Proseguia D. Affonso com tranquillidade no seu governo, estabelecendo leys muy uteis para o bom regimen;[615] porém no meyo de tanta paz elle mesmo se constituio causa de hum geral escandalo, e perturbaçaõ do Reino com o repudio, que fez de sua legitima esposa a Condessa Matilde, casando segunda vez com Dona Brites, filha bastarda delRey D. Affonso Sabio de Castella no anno de 1253, motivo de haver tanto disturbio com as censuras Ecclesiasticas, que opprimiraõ o povo, e naõ tiveraõ fim, senaõ com a morte da Condessa sua primeira mulher. Entaõ pedindo os Bispos de Portugal ao Pontifice quizesse dispensar com ElRey no segundo matrimonio, tudo concedeo o Papa Urbano IV. e ficou o Reino aliviado dos terriveis effeitos daquella Regia contumacia.[616]
42 Alguns Escritores se enganaraõ[617] em dizer que o Reino do Algarve fora dado em dote a D. Affonso III. e tal naõ foy, como doutissimamente provaõ D. Joseph Barbosa, e outros,[618] porque só consta que os Reys de Castella eraõ usufructuarios do Algarve desde o anno 1253 até o de 1264, em que se commutou em cincoenta lanças, com que Portugal havia de ajudar a Castella em caso de necessidade. Depois no anno de 1267 se tirou esta pensaõ em agradecimento de hum grande soccorro, que o Infante D. Diniz levou a D. Affonso o Sabio contra os Mouros.
43 Vendo-se ElRey desassombrado das guerras, e censuras Pontificias, tornou a meter o Reino em novas oppressões com o máo tratamento, que dava ao Sacerdocio Portuguez. Os Prelados, querendo defender o seu respeito, queixaraõ-se ao Papa, que entaõ era Clemente IV. o qual reprehendendo-o, e continuando as violencias no estado Ecclesiastico, continuaraõ tambem os Pontifices successores Grerio X., e Joaõ XX. ou XXI. com repetidas censuras, a que finalmente ElRey mostrou querer obedecer, e sujeitarse às determinações do Papa.[619]
44 Naõ obstante esta contumacia, pela qual talvez nosso Poeta[620] equivocadamente lhe chamasse Bravo, foy ElRey D. Affonso de notavel governo: adiantou o commercio, reedificou muitos Lugares do Reino, fundou alguns Conventos, como o de S. Domingos de Lisboa, o de Elvas, e Santa Clara de Santarem.[621] Alimpou o Reino de facinorosos, estabeleceo feiras publicas, e morreo em Lisboa a 16 de Fevereiro de 1279 com trinta e dous annos de reinado, e sessenta e nove de vida. Foy depositado seu corpo no Convento de S. Domingos de Lisboa, e daqui se trasladou para o de Alcobaça no anno de 1289, onde agora jaz.
D. Diniz sexto Rey.
45 Nasceo em Lisboa a 9 de Outubro do anno 1261. Conferio-lhe o Sacramento do Bautismo o Bispo do Porto D. Vicente Mendes, e foy seu padrinho D. Egas Lourenço da Cunha, hum dos principaes Cavalheiros desta nobilissima familia, e privado delRey D. Affonso III. Teve por ayos a Lourenço Gonçalves Magro, neto do grande Egas Moniz, e a Nuno Martins de Chacim, que ambos concorreraõ para pulirem o precioso, e Regio animo de D. Diniz, unidos com os desvelos de seu Mestre D. Aymerico, que depois foy Bispo de Coimbra.[622]