58 Em seus ultimos annos padeceo alguns desgostos com seu filho o Infante D. Affonso, procedidos da dura condiçaõ do Infante, e inveja, que tinha dos favores, que ElRey fazia a D. Affonso Sanches, seu meyo irmaõ. Houve guerras civis com grande disturbio do Reino, e cessaraõ com as supplicas da Rainha Santa Isabel, e de S. Raimundo. Morreo em fim este glorioso Rey em Santarem a 7 de Janeiro de 1325, tendo vivido sessenta e tres annos, e tres mezes, reinado quarenta e cinco, dez mezes, e vinte dias.[629] Jaz seu corpo no insigne Mosteiro de Odivellas em soberbo mausoleo.
D. Affonso IV. setimo Rey.
57 Começou a empunhar o Cetro ElRey D. Affonso IV. desde 7 de Janeiro de 1325 em idade de trinta e tres annos, e onze mezes, menos hum dia, contados desde 8 de Fevereiro de 1291 de seu nascimento em Coimbra, conforme a exactissima, e verdadeira Chronologia do Academico Francisco Leitaõ Ferreira.[630] Desde a primeira idade mostrou o aspero natural, de que era dotado. Casou em Mayo de 1309[631] com a Senhora Dona Brites, filha delRey D. Sancho o IV. de Castella, e em Lisboa se celebraraõ os desposorios com grande fausto, e pompa.
58 Com o novo estado, que o fez separar de casa, e governo, foy dando entrada a muitas occasiões de o perverterem homens estragados, fazendo capricho de os amparar; e dando-se todo ao exercicio da caça, tomava por occupaçaõ o que só devia ser divertimento, e este excesso lhe causou alguns desgostos. Como o animo, e condiçaõ delRey era aspero, de fórma que por elle grangeou o epitheto de Bravo, emprendeo acções arduas, e teve grandes discordias com seu pay, e seu sobrinho D. Affonso Rey de Castella, com bastante damno de ambos os Reinos.[632]
59 Todavia estas desavenças naõ foraõ sufficientes para deixar de ajudar com sua pessoa, e vassallos a ElRey seu genro na famosa batalha do Salado contra Ali-Boacem, Rey de Marrocos, e ElRey de Granada, cujos exercitos rompeo, desbaratou, e venceo com grande credito do valor Portuguez em 30 de Outubro de 1340.[633] Fez por duas vezes mudar os Estudos geraes, que seu pay instituio; a primeira de Coimbra para Lisboa no anno de 1338, a segunda de Lisboa para Coimbra no de 1354,[634] concedendo-lhe, e ampliando-lhe varios privilegios.
60 Obrou algumas acções de piedade regia, como foy o edificio da Sé com erecçaõ de Capellas, e renda fixa para os Capellães cantarem; hospitaes, e outras acções pias. O que lhe causou mayor affronta na sua memoria, foy além das discordias, e desobediencia, que temos dito, o consentir que no anno 1355 tirassem a vida com tanta crueldade à formosa D. Ignez de Castro, que clandestinamente estava casada com o Principe D. Pedro seu filho. Falleceo na Cidade de Lisboa em 28 de Mayo de 1357 com sessenta e seis annos de vida, tres mezes, e vinte dias, e de reinado trinta e dous anos, quatro mezes, e vinte e hum dias. Jaz na Basilica de Santa Maria, que foy a antiga Metropole de Lisboa, da parte do Evangelho, e na Capella Mór[635].
D. Pedro I. oitavo Rey.
61 O dia do nascimento delRey D. Pedro I. he calculado com muita variedade pelos nossos Escritores. O diligentissimo Academico Francisco Leitaõ Ferreira depois de referir todas as opiniões, que ha neste ponto, conclue, e assina por mais certo o dia 18 de Abril na antemanhã de huma Sesta feira em o anno do Senhor 1320.[636] Tanto que este Monarca tomou posse do governo, que foy a 28 de Mayo de 1357, tendo entaõ de idade trinta e sete annos, hum mez, e nove dias, cuidou logo em se vingar dos que foraõ complices na morte de Dona Ignez. Tinhaõ elles fugido para Castella, e como em Portugal andavaõ tambem refugiados tres Hespanhoes facinorosos, contratou ElRey com o de Castella que lhos entregaria, com condiçaõ de lhe dar a Alvaro Gonçalves, Meirinho Mór, Pedro Coelho, e Diogo Lopes Pacheco, que eraõ os aggressores daquella innocente morte.
62 Fez-se o contrato com grande escandalo, porque dizem que elle havia promettido com juramento a ElRey seu pay de perdoar aos executores da morte de Dona Ignez. Na Villa de Santarem se poz por obra a vingança, e D. Pedro mandando justiçar a dous, (porque Diogo Lopes salvou-se a beneficio de hum pobre, que o avisou antes de prenderem os outros,) com fera, e terrivel execuçaõ lhes mandou tirar os corações a hum pelas costas, a outro pelos peitos, e depois queimallos.[637] Parece que este excesso, com que castigava os delictos, lhe adquirio o epitheto de Justiceiro, que o vulgo com menos respeito, e mais ignorancia mudou para o cognome de Cruel, de que os deixou desenganados o Plataõ Portuguez Sá de Miranda, quando disse delle:[638]
Pedro, que amores teve com a Justiça Real, e naõ cruel inclinaçaõ.