98 Depois da morte de seu pay, achando-se em Cintra, e passados os tres dias de nojo, foy acclamado Rey em 31 de Agosto do anno de 1481, e foy esta a segunda acclamaçaõ, que teve. Cuidou logo em dar cumprimento aos legados de seu pay, e applicando-se a conhecer as pessoas, que se sabiaõ distinguir pela sua capacidade, e talento, as honrava, e premiava de sorte, que se fez amar, e estimar de todos, especialmente do povo.
99 No principio de seu reinado aconteceraõ grandes desasocegos nascidos da altivez dos Nobres, que sahindo da brandura delRey D. Affonso, e dando na integridade do filho, mal sabiaõ viver em taõ desconformes extremos, de que procederaõ conjurações contra elle, que severamente punio, e com grande excesso no Duque de Bragança D. Fernando II. mandando-o degollar na praça de Evora em 21 de Junho de 1483, tragedia reputada horrivel, como effeito da causa, cujas circunstancias naõ mereciaõ tanto rigor,[686] sendo na verdade o Duque Cavalheiro, conforme o juizo de todos, merecedor de melhor fortuna, como bem adverte o elegantissimo Marquez de Alegrete.[687]
100 Foy ElRey D. Joaõ Principe de coraçaõ intrepido, como o deu a conhecer em varias occasiões;[688] de hum engenho muy vivo, e desembaraçado, que nunca se deixou governar de outrem, parecendo-lhe que naõ merecia chamarse Rey aquelle, cuja vontade pendia de arbitrio alheyo. Nunca tardou em fazer mercês, e remunerar serviços, e o que havia de dar, o dava logo, e muitas vezes sem lho pedirem, trazendo occultamente hum livro com os nomes das pessoas benemeritas. As mesmas dadivas mandava distribuir por outras pessoas de outros Reinos, que lhes serviaõ de promptas, e diligentes espias, ardil, que lhe grangeou a sciencia politica de muitos negocios, e segredos reconditos.[689]
101 Attendeo muito ao bem publico, e por conta desta conservaçaõ desfez muitos abusos, e fez com que se evitassem as casas de jogo, mandando queimar huma, onde concorria mais gente, em cuja acção deixou aos vindouros hum exemplo mais digno de se imitar, que imitado.[690] Publicou tambem leys, em que prohibia todo o excesso de galas, e tudo o que podesse causar destruiçaõ na fazenda, e bons costumes de seu povo. Deu muitas provas da verdade, com que amava a Religiaõ Christã: fez todo o excesso, para que os Judeos, que se vieraõ refugiar em Portugal, se reduzirem à Fé de Christo, obrando a generosa acção de lhes mandar dar embarcações para se irem os que não quizeraõ converterse.
102 As fundações dos Templos saõ tambem sufficiente prova da sua Religiaõ. Elle deu principio à magnifica Igreja do Hospital Real de Lisboa, e lançou a primeira pedra nos alicerces do Mosteiro de Jesus de Setubal, e deu nova Casa às Commendadeiras de Santos no Convento, onde hoje existem em Lisboa. Dispoz que na sua Capella Real se rezassem em Coro as Horas Canonicas, estabelecendo rendas para isso. Aspirando à gloria de fama perduravel, descubrio com suas frotas o Reino do Congo, e nelle fundou Igreja, onde se bautizou o Rey com seus filhos, e bastante parte do povo. Abrio o caminho à navegaçaõ das Indias Orientaes, e solicitou descubrir incansavelmente por mar, e por terra a costa de Africa até aquelle tormentoso Cabo, a que chamou de Boa Esperança, pelas que se abriaõ do descubrimento da India.
103 Taõ grandes brados tinha dado a fama das suas acções, que alguns Principes estrangeiros vieraõ a Portugal de proposito somente para o ver; porque sem duvida na liberalidade, na justiça, na piedade, na generosidade, e na Religião foy singularissimo, recto, admiravel, pomposo, e Catholico, e assim acabou com a fama de Principe perfeito em 25 de Outubro de 1495 na Villa de Alvor com suspeitas de lhe terem dado veneno. Viveo quarenta annos, cinco mezes, e vinte e dous dias: reinou quatorze annos, hum mez, e vinte e cinco dias. Foy sepultado na Sé de Sylves, donde passados quatro annos, ElRey D. Manoel lhe trasladou seu corpo para o Convento da Batalha, onde se conserva incorrupto, sinal, que alguns pertendem attribuir aos que saõ predestinados.[691]
D. Manoel decimo quarto Rey.
104 Parece, como bem disse o nosso Homero,[692] que Deos tinha escolhido a ElRey D. Manoel para ser Monarca entre os de Portugal o mais venturoso. Logo no seu nascimento começou a experimentar o Ceo propicio; porque achando-se na Villa de Alcochete sua mãy a Infanta Dona Brites vencida das dores de parto, e com evidente perigo, quasi milagrosamente o deu à luz no mesmo ponto, que lhe passava pela porta o Santissimo Sacramento na Procissaõ solemne do Corpo de Deos, por cuja mysteriosa causa se lhe impoz o nome de Manoel, e por cuja notavel circunstancia de Festa, e Procissaõ infere, e assina judiciosamente o Beneficiado Francisco Leitaõ Ferreira,[693] que o verdadeiro dia natalicio deste Monarca foy no primeiro de Junho de 1469, porque a letra Dominical daquelle anno, que foy A, assim o insinua, prova irrefragavel, que convence a contraria opiniaõ de todos os que collocaraõ este feliz nascimento no ultimo de Mayo do mesmo anno.
105 Era D. Manoel Duque de Béja, e de Viseu, filho do Infante D. Fernando, e neto delRey D. Duarte; e com haver nascido sem esperança de reinar, succedeo no Reino depois de ver como para conseguir esta felicidade lhe hiaõ fazendo lugar com a morte algumas pessoas, a quem tocava a successaõ. Subio finalmente ao Throno em 27 de Outubro de 1495, estando em Alcacer do Sal, donde veyo logo a celebrar Cortes na Villa de Montemór o Novo, dando principio ao governo mais feliz, que vio o Reino com a reforma, que fez dos Ministros, e Officiaes de Justiça, e boa arrecadaçaõ da fazenda.[694]
106 Como bom Catholico se lembrou logo da obediencia à Igreja, e assim despedio para Roma promptamente hum Embaixador, para dar noticia ao Pontifice da sua investidura do Reino de Portugal, mandando tambem pedir ao mesmo Papa, que era Alexandre VI. a impetra, para que os Cavalleiros das Ordens Militares podessem casar, como com effeito lhes concedeo,[695] e com a mesma protecçaõ augmentou a Ordem de Christo em gloria, e renda.