107 Imitando o louvavel exemplo dos Reys de Castella, mandou expulsar fóra do seu Reino aos Mouros, e Judeos, excepto os que se quizeraõ converter à Fé de Christo;[696] e logo em Outubro do anno 1497 recebeo por mulher a Senhora Dona Isabel, viuva do nosso Principe D. Affonso, filho delRey D. Joaõ II. e ella filha dos Reys Catholicos D. Fernando, e Dona Isabel.
108 Se pertendessemos narrar todas as acções memoraveis deste Monarca, fariamos hum grande volume; sirva ao menos a expressaõ desta impossibilidade, segundo a ligeireza do estylo, que guardamos, para provar a sua grandeza. O certo he, que na regencia delRey D. Manoel foy o Reino de Portugal elevado ao mayor gráo do seu esplendor. Então se viraõ quebrantadas as forças dos Reys Africanos; entaõ se acabou de descubrir a navegaçaõ da India Oriental, que ElRey D. João II. havia premeditado, sendo o inclyto Heroe Vasco da Gama o primeiro, que no anno de 1497 logrou a gloria de abordar as prayas de Calecut, e introuduzir o commercio das suas preciosas especiarias em Portugal, naõ obstante a grande resistencia, e embaraço, que a isso fizeraõ os Venezianos.[697]
109 Accrescentou D. Manoel a seu Imperio naõ pequena parte da Ethyopia, Persia, India, dentro, e fóra do rio Ganges, o Brasil, e innumeraveis Ilhas do Oceano até alli incognitas. Sujeitou, muitos Reys; e estando taõ apartados por tanto espaço de mar, e terra, os fez tributarios: outros se fizeraõ confederados, e amigos. Venceo muitas vezes na India as armadas do Soldaõ de Babylonia, e de outros poderosissimos Reys Orientaes. Plantou a Religiaõ Christã na Ethyopia, India, e outras partes do mundo ainda naõ allumiadas com a luz do Evangelho, favorecendo, e amparando aos convertidos. Libertou o estado Ecclesiastico de tributos, e pensões, e dos mesmos aliviou aos mais vassallos, dando novos foraes às terras, de que mandou formar cinco livros, que se conservaõ na Torre do Tombo.
110 Para mayor augmento da sua felicidade se vio jurado Rey de Castella em 28 de Abril de 1498,[698] cuja posse, e titulo brevemente possuio pela intempestiva morte da Rainha Dona Isabel sua esposa, herdeira daquelle Reino. Fundou Templos, que podem competir com os melhores de Roma.[699] Fez nadar em ouro o Reino, e quasi chover em Portugal perolas, e diamantes; em tal fórma, que se chamou idade de ouro a em que reinou D. Manoel como bem mostra Manoel de Faria.[700] Agradecido aos continuados beneficios com que Deos lhe dilatava o Imperio, quiz religiosamente gratificallos ao Senhor, mandando ao Papa Leaõ X. entaõ reinante, offerecerlhe, e tributarlhe como a Vigario de Christo na terra, as primicias das riquezas da India, e Etiopia. Para isso dispoz huma Embaixada, que a 12 de Março de 1514 fez Tristaõ da Cunha com tanta magestade, pompa, e grandeza, que nunca se vio semelhante em Roma.[701] Em fim naõ houve prosperidade, que elle naõ abraçasse, parecendo ser disto auspicio a grandeza dos braços, que tinha mayores que nenhum outro homem. Tambem amparou as letras grandemente;[702] e cheyo de taõ heroicas acções fechou o gyro de seus dias aos 13 de Dezembro de 1521 pelas nove horas da noite, achando-se em Lisboa nos Paços da Ribeira, tendo de idade cincoenta e dous annos, seis mezes, e dous dias, dos quaes reinou vinte e seis annos, hum mez, e dezoito dias. Jaz no Real Convento de Belém extra muros de Lisboa, que elle mandou edificar para seu jazigo.
D. Joaõ III. decimo quinto Rey.
111 Succedeo no Throno a ElRey D. Manoel seu filho D. Joaõ III. que havia nascido em Lisboa a 6 de Junho de 1502, dia memoravel pela horrivel tempestade, que houve no Reino de trovões, rayos, e coriscos.[703] Foy acclamado a 19 de Dezembro de 1521, fazendo-se o acto à porta do Convento de S. Domingos de Lisboa. Os principios do seu reinado foraõ tecidos com egregias acções de piedade, clemencia, e generosidade, adquirindo-lhe estas virtudes amor de seus vassallos, e a estimaçaõ de todos os Principes da Europa.
112 Foraõ os seus primeiros cuidados proseguir logo vivamente as conquistas da India, em que os Portuguezes obraraõ façanhas de eterna memoria, e este mayor projecto lhe fez relaxar aos Mouros de Africa quatro Praças principaes, Alcacer, Arzila, Çafim, e Azamor, de que tanto se lamenta Manoel de Faria,[704] e a cujo consentimento attribue o mayor desacerto deste Rey, ou de seus Conselheiros. Melhorou esta acçaõ, impetrando do Papa Clemente VII. o veneravel Tribunal da Inquisiçaõ para este Reino. Reformou muitas das Religiões, que hiaõ descahindo da sua primitiva observancia. Admittio em Portugal a Religiaõ denominada da Companhia de Jesus, e lhe instituio em diversas partes do Reino Collegios; devendo-se a este Monarca a gloria da conversaõ da gentilidade em taõ continuados progressos na Asia, Africa, e America, que naquelles primeiros tempos souberaõ plantar com zelo aquelles Religiosos.
113 Descubrindo ElRey alguns inconvenientes de haver na Corte estudos publicos, removeo a Universidade outra vez para Coimbra no anno de 1534 conforme dizem huns,[705] e segundo outros no de 1537,[706] mandando vir a este respeito, e com grandes dispendios os melhores Mestres de letras, que havia na Europa,[707] de sorte que restabeleceo em Coimbra a mais florente Academia das sciencias; e extendendo-se este louvavel affecto para as Conquistas, mandou estabelecer tambem na India escolas para as artes, e sciencias.[708]
114 Por sua instancia se erigiraõ no Reino os tres Bispados de Leiria, Portalegre, e Miranda, e outros nas Conquistas; e levantando em Metropolitana a igreja Cathedral de Evora, reedificou o sumptuoso aqueducto desta Cidade, que se hia arruinando. Continuou o edificio Regio de Belém, e fez outros de novo em publica utilidade, como foy a Alfandega, as Tercenas, os Armazens, e a Torre do Tombo.[709] Para a boa administraçaõ da Justiça instituio o Tribunal da Mesa da Consciencia, e Ordens, e para os mais Tribunaes teve o dom de saber escolher Ministros proporcionados. Amou muito a paz, e por isto dizia, que mais perdia no que se gastava na guerra, ao que lucrava com o que alcançava na vitoria. Finalmente assim nas cousas da paz, como nas da guerra foy ElRey D. Joaõ Principe admiravel, nascido para beneficio dos homens, amparo dos humildes, e estranhos, verdadeiro conservador do culto Divino, e propugnaculo da Religiaõ Catholica. Morreo em Lisboa aos 11 de Junho de 1557, e aos cincoenta e cinco annos, e cinco dias da sua idade, e de governo trinta e cinco annos, e seis mezes. Jaz no Convento de Belém junto de seu grande Pay. Foraõ muitas as lagrimas, que o povo derramou na sua morte, a qual foy tida por termo, que o Ceo punha às felicidades do Reino.