115 Foy ElRey D. Sebastiaõ filho do Principe D. Joaõ, e da Princeza Dona Joanna, e neto delRey D. Joaõ III. Nasceo em Lisboa posthumo a 20 de Janeiro de 1544, e dahi a tres annos, morrendo seu Avô, ficou herdando o Cetro, mas sujeito à tutoria da prudentissima Rainha Dona Catharina, e aos preceitos de seu Ayo D. Aleixo de Menezes, e dos do Padre Luiz Gonçalves da Camera, ambos Fidalgos illustres, os quaes em toda a sua educaçaõ lhe inspiraraõ o amor da justiça, e o zelo da Religiaõ Christã.
116 Como os espiritos deste Principe eraõ generosos, e cheyos de hum grande, e admiravel desejo de aquirir gloria, começou logo a idear emprezas verdadeiramente temerarias para a sua idade; de sorte, que chegando aos quatorze annos, se resolveo tomar posse do governo em 20 de Janeiro de 1568, e entaõ dando-se todo ao aspero exercicio das armas, e da caça, fazia brio de se mostrar intrepido, e destemido em todas as occasiões. Quando os ventos, e as ondas andavaõ mais irados, então sahia fóra da barra a lutar com a tempestade; e em fim as suas acções eraõ todas imagens de seu precipicio, como bem diz Manoel de Faria.[710]
117 Tanto confiava em seu valor, que tinha para si podia conquistar todo o mundo; e como sempre sahia bem dos perigos, em que se mettia, se lhe augmentavaõ cada vez mais os desejos de principiar pela conquista de Africa. Este santo intento trouxe quasi do berço, e para o executar se dirigiaõ os seus cuidados, e pensamentos, que assoprados com a lisonja dos que se queriaõ conformar com o seu fogoso genio, mais lhe accendiaõ no peito deliberações temerarias. Praticou-as, passando primeiramente no anno de 1574 a discorrer pelas terras de Tangere, e Ceuta, onde fazendo differentes correrias, e escaramuças, assustou os barbaros, mas vio a difficuldade, a que a sua ambiçaõ aspirava.
118 Todavia succedendo despojar Muley Maluco dos Reinos de Marrocos, e Fez a seu sobrinho Muley Hamet, este se veyo valer do nosso Rey, offerecendo sua pessoa, e os que o seguiaõ. Preparou-se D. Sebastiaõ para soccorrer a Hamet, e atropellando todos os conselhos prudentes, que lhe dissuadiaõ esta perigosa, e incauta jornada, sahio do porto de Lisboa em 24 de Junho de 1578, anno, e dia taõ infaustos para Portugal.[711] Compunha-se o exercito delRey de dezoito mil homens, dos quaes eraõ tres mil Castelhanos, tres mil Alemães, novecentos Italianos, e os mais Portuguezes, gente a mais luzida, e lustrosa, que havia no Reino, mas sem exercicio militar.
119 Chegou a Arzila, e logo achou aqui na mostra, que mandou passar, diminutos os Regimentos, que naõ passavaõ de doze mil homens. Constava porém o exercito inimigo de cento e cincoenta mil, a mayor parte de cavallo, de cujo fatal numero opprimidos os nossos ficaraõ vencidos a cinco de Agosto do mesmo anno de 1578, dia de Nossa Senhora das Neves, eclipsando-se nesta infeliz, e lastimosa batalha toda a gloria, e lustre Portuguez nos campos de Alcacere, os quaes ficaraõ memoraveis pelos tres Reys, que alli morreraõ. Bem he verdade que ninguem verifica ter visto morrer na batalha a ElRey D. Sebastiaõ, nem depois com certeza o tornaraõ a ver, donde tomaraõ alguns motivo para esperar por elle, delirio, que com teimosa tradiçaõ permaneceo bastante tempo, pertendendo os seus sequazes em taõ fanatica esperança fazer verdadeiramente crer, que este lamentavel Monarca fosse entre os homens outra ave Fenix, da qual dizem que existe, mas ninguem a vio. Mons. de la Clede assenta,[712] que ElRey naõ morrera no conflicto de Alcacere, mas sim no Castello de San Lucar de Barrameda, opiniaõ, que os nossos Escritores naõ admittem.
120 A noticia desta fatalidade trouxe a Portugal grande confusaõ; porque depois della naõ se via, nem ouvia em todos mais que lagrimas, e impaciencia pela perda geral de hum Reino sem successaõ, e de hum Rey extincto na flor da sua idade, e com elle a flor da Nobreza, vindo-se a concluir todo este catastrofe com as exequias, que se celebraraõ com a possivel expressaõ de sentimento, até que passados quatro annos chegou a Lisboa, mandado pelo Xarife, o corpo, que diziaõ ser delRey D. Sebastiaõ, e se mandou sepultar no Convento de Belém, onde jaz todavia com a incerteza, que indica a inscripçaõ do seu epitafio,[713] o qual dia assim:
Conditur hoc tumulo, si vera est fama, Sebastus,
Quem tulit in Lybicis mors properata plagis.
Nec dicas falli Regem qui vivere credit,
Pro lege extincto mors quasi vita fuit.
D. Henrique, decimo setimo Rey.
121 Tanto que a triste nova da perda delRey D. Sebastiaõ chegou a Portugal, elegeraõ, e acclamaraõ os Tres Estados do Reino ao Cardeal D. Henrique, filho delRey D. Manoel, que entaõ se achava na avançada idade de sessenta e seis annos, contados desde 31 de Janeiro de 1512 em que nasceo. Era elle ornado de excellentes dotes, e virtudes, muy pio, e temente a Deos, e em tudo mostrou quanto era capacissimo para o Baculo, e para o Cetro. Amou as sciencias, amparou a orfandade, soccorreo a pobreza, confundio as heresias, restaurou Templos, e em fim foy Pastor, e Rey sem embaraçar com as desculpas de Monarca os empregos de Sacerdote.[714]
122 Acclamado porém a 28 de Agosto de 1578 por legitimo Rey, e successor de Portugal, cuidou logo no resgate dos Fidalgos, e mais gente, que ficaraõ cativos na fatal batalha de Alcacere, em que dispendeo muito dinheiro; porém como os achaques, e a idade já decrepita lhe diminuiaõ as forças attenuadas, e comprimidas tambem pelas negociações, e governo de huma Monarquia decadente pela falta de successaõ, muitos Principes da Europa estavaõ attentos naõ só ao fim, que por instantes esperavaõ haver no Reino, mas como se Portugal fora herança, que a todos lhes pertencesse.